Fonte: Jornal do Brasil, de 4/08/1971.
Num momento particularmente difícil da minha vida, vi tudo desmoronar. Tudo. Pensei que deveria guardar silêncio, ou então falar de outra coisa. Depois compreendi que a minha vida é de papel, e que no papel deve ser registrado o acontecimento. (Estou acordando completamente embriagado; talvez seja esse o acontecimento.)
Depois de tentar o diálogo com diversas pessoas, aceitei a teoria da minha singularidade. Olhei-me no espelho e disse: “Estou no ventre da baleia, tal como Jonas. Já me suicidei tantas vezes…” O caso é que, depois de ter transformado a minha vida num caso de papel, fui invadido por um pudor que não estava na minha formação. Graças às crises cíclicas insolúveis em que me meto, aprendi que o pudor está dentro da hipocrisia, que está dentro da mentira, que está dentro da... baleia. Então eu vinha vivendo sem pudor. Mas ninguém me acompanha nessa decisão — ou atitude. Planejei, conforme vocês viram, relembrar a minha infância. E relembrei, sem comunicar a ninguém. E me bateu aquela velha angústia que é o pudor: quais são as coisas que se dizem, e as que não se dizem? Por que estaremos sempre guardando palavras que, ditas, nos aliviariam? De onde veio o segredo, que é mãe da mentira? Quem é que disse que o ser é sigiloso? Por que sofremos? Por que não tenho eu coragem de escrever um livro sobre mim?
A verdade é que uma imensa piedade paira sobre os despudorados; e quem tem pudor tem medo dessa piedade. Vivemos um momento de sofrimento universal, nacional e pessoal, mas tudo se passa como se este fosse o melhor dos mundos. Ninguém quer chegar lá, ou então são poucas as pessoas que estão aparelhadas para chegar lá. Agora, onde é lá? Eis o problema.
A religião? Eu nasci pagão e me crismaram. Não tive escolha. Passaram um pouco de cinza na minha testa e está para sempre dito: “Não és mais pagão”. Descurte essa, bicho…
Que loucura! É uma exclamação que temos, o Antônio e eu, quando contemplamos uma situação absurda: “Que loucura”! Ou vamos dizer, neste texto perfeitamente patético, no qual estou lutando para vencer o pudor e o medo: que censura!
Não posso escrever uma única palavra que não deva ser por mim mesmo estudada à procura de algum som que indique uma predisposição minha contra a autoridade.
Sendo assim, fiquei sentado numa pedra, ouvindo Mozart e dizendo: “Já me suicidei tantas vezes... Desta vez, quem me salvará”? Minha solidão é brasileira, reside no fato de que mergulhei nos surrealistas e nos existencialistas e que ninguém, aqui no Brasil, me acompanhou nessa jornada pelas veredas sombrias. É tudo gente interessante, enquanto eu queria e sou um escândalo.
Ouvindo Mozart, lembrei-me da lei da disposição dos espíritos em relação aos alimentos disponíveis, formulada por Virginia Woolf. Diz ela que, havendo uma estante com livros e uma angústia não formulada, basta você pegar um livro qualquer e abri-lo numa página qualquer, que a sua angústia estará nessa página, perfeitamente legível. É uma lei psicológica, como a da gravidade — ou melhor, da relatividade. Pego um livro qualquer à procura da minha angústia e
leio:
“Nossa alma rejuvenescida mostrará sem pudor as suas qualidades puras. A humanidade atual cresceu numa atmosfera de ódio febril, de amor, de falsos julgamentos que a envenenam. Entretanto, que se fortifique nela o hábito, não de odiar e amar, não de condenar ou absolver, mas de compreender, e eis que uma humanidade totalmente inocente e sábia tomará o lugar de nossa velha raça iníqua, envenenada de ressentimento por seus remorsos ilusórios”.
Ainda com Nietzsche a palavra é a minha esperança: “Não basta sofrer para ter direito ao pessimismo”.