Tramita no Parlamento a legislação que deverá finalmente proibir o secular esporte — se é que assim se pode chamá-lo — da caça à raposa com cães. Um assunto que deixa a maior parte do mundo entre entediado e perplexo, mas que é dos mais graves entre os ingleses, tanto os que são a favor quanto os que são contra a caça. Oscar Wilde, para variar, foi quem, há mais de um século, definiu, com sua habitual ironia e perspicácia, a caça à raposa — para ele, era "o inefável perseguindo o incomível".
O Parlamento, em primeira instância, votou pela proibição à caça. Tudo indica que a coisa vai acabar bem para o lado da raposa. E vai acabar mal para os cães, que, segundo seus donos, ou treinadores, terão de ser destruídos. Não esclareceram se destruídos por raposas, em represália a anos de perseguição, ou outros animais de maior porte, feito nós, gente. Tudo indica que, como em tanta coisa mais, uma conta de chegar, solução muito inglesa, será encontrada. Nada de espetacular, como caça a raposas virtuais com cães também virtuais, mas não muito distante disso.
O jornal The Guardian, de tendência liberal (digamos logo: de esquerda), é contra a caça à raposa. Com cães, com ursos de pelúcia, com seja lá o que for. Na semana e no dia em que os ilustres membros da mãe-Parlamento iriam decidir o futuro de todos os animais envolvidos na benzérrima contenda, o Guardian publicou, em seu suplemento, uma matéria de duas páginas das mais terríveis. Difícil ler o texto todo e não acabar se posicionando violentamente (se tal é possível) contra a matança de todo e qualquer bicho. O Guardian compôs meticulosamente um quadro medindo o índice de sofrimento dos animais mortos por nós, homens. Seja ou não para comer. No quadro, enumerava-se o bicho em questão, seguido das condições de vida no cativeiro, sua saúde e dieta, o estresse sofrido antes da morte e finalmente o sofrimento experimentado durante a morte. A cada um dos itens era atribuída uma nota, de zero a dez. Quanto mais pontos, mais sofrimento. Ganharam, ou melhor, perderam o porco e o salmão cultivado, com um total de catorze pontos. Logo depois, nossa amiguinha, a raposa, com dezessete pontos. Seguida da vaca, com dezoito pontos. Vencedoras saíram as galinhas, que sofrem morte instantânea por eletrocução, mas antes disso passam horrores. Maiores detalhes foram evitados a fim de não promover o vegetarianismo. Este texto, estas linhas, como manda o figurino, deve ser absolutamente isento. Como o garçom que serve o xerez aos caçadores antes de eles partirem em busca da raposinha.