Imagens súbitas
Uma vila na avenida Princesa Isabel, com uma pedra no alto, ameaçando as casas: vejo no Correio a foto do rapaz e da moça galgando a escadaria e observando a rocha – e o coração recua 25 anos e me coloca de novo numa vila igual, à beira do morro, sob pedras imensas – nessa mesma Princesa Isabel. O coração, não a memória, que é vaga e se deixa enganar; o outro vai certo. A rua tem várias ruazinhas interiores, e na última delas, quase à boca do túnel, morávamos. Primeira casa alugada na cidade grande: como não se gravaria na gente? Uns provincianos tímidos pedindo licença para tomar parte na vida do Rio, “encostar- se” na cidade, sem perturbar nem exigir muito; deixasse nossa menina crescer, era toda a ambição. A garota sentou-se tristinha no patamar de entrada; brincara com bonecas, queria brincar com gente. Do outro lado da rua, Maria Helena e Edina olhavam-na cautelosas. Seus pais haviam recomendado: “Não se aproximem, é gente de fora, ninguém sabe o que são”. Há um quarto de século, no Rio, as famílias tinham essas precauções. Alguém deve ter dado informações tranquilizadoras a nosso respeito, pois um dia as meninas chegaram perto, interessando-se pela bicicleta; ficaram amigas para sempre. As casas eram tão coladas que parecia não haver lugar para solidão. Por isso mesmo os moradores se fechavam, faziam o mínimo de ruído, ignoravam-se lautamente. Eram tudo ilhas particulares. Cada fachada se mostrava diferente das outras, ao contrário do comum das avenidas. Na última casa, lá no fundo, certa moça solitária caprichava em isolamento – D. Júlia – e atravessava a rua com a velocidade balística dos coelhos, sem olhar para fora de si: altos mistérios humanos. Nosso vizinho advogado tinha forma imprecisa, poucos o viam, talvez nem mesmo existisse. Pouco além era a costureira, boa e valente pessoa. D. Marina, de olhos alegres, dava expediente no Palácio do Catete; olhávamos para ela como para segredos de Estado, mas Getúlio nada lhe dizia. Nossos fundos confinavam com o quintal do prof. Austregésilo; depois do ajantarado de domingo, vimos o mestre quentando sol junto a um mamoeiro, em companhia de Georges Duhamel, fato que celebrei em verso livre. Hilda, de moreno esplendor, escandalizou-se ao ver o pai da garotinha sair à rua de pijama e perscrutar o horizonte próximo, aflito porque a filhinha tardava; inquietações pediam roupa decente. A casa foi ficando cheia de recordações próprias, intransferíveis, amigos que almoçaram lá, hóspedes, o sujeito que se declarou irmão de Ribeiro Couto, reticente, noturno, tinha matado um homem em S. Paulo, viera sutil e ia meter o pé no mundo; precisava de cama e algum dinheiro, e desapareceu na madrugada; nunca fora irmão do poeta nem matara ninguém. E a casa se ia tornando uma coisa nossa, nossa sem escritura, pela adesão da coisa à pessoa, da pessoa à coisa, quando surge aquele alemão em frente, de quarto alugado em casa das moças de Campos; era tempo de camisa verde, pregou na fachada um cartaz medonho, um tipo apontando com o dedo para todo mundo: “Cumpre teu dever, alista-te na Ação Integralista Brasileira”, não se podia abrir a janela, o dedo entrava, intimava, reclamação não valeu, nem apelo a amigos ligados ao partido, o jeito era mudar: bons tempos em que se ousava mudar, havia apartamentos esperando. Depois, soube que a vila se tornara trágica, marido mata a mulher e se suicida, e vêm outros inquilinos, basta pintar uma casa para ela perder os maus eflúvios, a vila foi vivendo, vista de passagem, e sendo esquecida: ressuscitou agora, atrás dessa notícia de jornal. E tudo se move, que parecia inerte, soterrado sob uma pedra maior.