Rilke chegou a Moscou num dia de páscoa, e todos os sinos badalavam. Eram os meus sinos, contou o poeta, era minha primavera e minha páscoa pessoal. Os sinos pareciam fazer-lhe sinais, comovendo-o profundamente.
Já o poeta Blaise Cendrars nos descreve uma dolorosa “páscoa em Nova York”, onde ele está só e sente que no quarto vizinho alguém, mudo e triste, espera ser chamado. Esse alguém é o Cristo, com quem Cendrars nunca se comunicara. Conhecia todos os Cristos de museu, e não o verdadeiro, que agora desce a seu lado e erra pela cidade, uma cidade onde os anúncios luminosos tornam sangrentas as vidraças das casas e até as mulheres, orquídeas murchas. Cendrars passa por mendigos e prostitutas, pelo bairro judeu e pelo “quarteirão dos bons ladrões”. Procura uma igreja, mas l n'y a pas de cloches, Seigneur, dans cette ville. Amanhece um novo dia de trabalho, e o poeta, de novo sozinho no quarto, já não pensa no Cristo.
Tenho a impressão de que também não há sinos no Rio, ou eles tocam em surdina, ou não temos ouvidos para escutá-los, ou batem apenas em corações mais humildes. Para quem não se integra numa comunidade religiosa, e entretanto, vive a vida da cidade, a Páscoa está reduzida a um ovo de Páscoa. E que contém esse ovo? Em muitas casas, os meninos discutiam impacientes, querendo abri-lo, à espera de alguma coisa boa de comer ou de usar. E um novo mito, parente do mito do Natal, vai ganhando a alma infantil: temos um coelho pascal, distribuindo presentes a garotos bem comportados e a brotos da nossa admiração, um coelho quase litúrgico, na medida em que vai o comércio elaborando sua liturgia própria.
Este ano observou-se um esforço publicitário, uma “promoção” para que o almoço de páscoa fosse à base de determinado produto. Não sei de nada que mais repugne aos restos derrotados do meu individualismo do que a imposição de um cardápio. Já pensaram em milhares de pessoas comendo à mesma hora o mesmo prato industrializado, sob o influxo de uma festa religiosa? Valeu-nos Chico Wrigth, dando pela TV uma receita de cuca de banana, que pode variar em cada casa ao sabor da imaginação de cada um, pois, como não se cansa de ensinar, “culinária é requinte e detalhe”. Exatamente o que nos falta na vida de hoje. O cronista experimentou a cuca. É boa. E sobretudo é uma contribuição, no plano do paladar, para salvarmos um pouco dessa agonizante liberdade de não fazer o que não for do nosso gosto — já que fazer o que for do nosso gosto, isso raramente se ousa.
A crônica, realmente vadia, não terminará sem o registro de abril. É um mês que agrada ao cronista, por motivos vários, se bem que não interessa declará-los aqui. Salvo este, de natureza verbal: abril, lindo nome, rima forte e cantarilha. Vem à memória o verso de Mário de Andrade: “A tarde se deitava nos meus olhos — e a fuga da hora me entregava abril”. Capistrano de Abreu, e contudo não era poeta, batizou um filho com o nome de Fernando, mas só o chamava Abril. Os rifões de abril são todos portugueses, como a generalidade dos rifões (abril, frio, pão e vinho; abril, águas mil, coadas por um mandil) e há que fazê-los brasileiros, com ajuda dos folcloristas. Para começar, proponho alguns, de emergência: Para o funcionário aumentado: “Abril, sobra da venda para o imposto de renda”. Para o candidato a embaixador: “Abril, perguntas mil; folga o sábio e treme o imbecil”. Para o P.S.D.: “Abril, reforma da lei sem reformar a grei”. E para o presidente: “Abril, começo de inverno; espero ainda, ou governo?”