Dizem que está voltando a moda do chapéu. Quando voltará a da cabeça? Não será amanhã, pois essa peça do corpo humano é de fabricação delicada, e sua feitura intensiva exigirá a readaptação da indústria, que há tanto tempo abandonou essa linha de produção. De qualquer modo, os chapéus começam a andar no ar, a relativa distância do pescoço, no lugar onde outrora havia a cabeça.

O desaparecimento da cabeça, entre nós, não foi instantâneo, nem data por exemplo de 1937, como insinuam os eternos descontentes e os liberais. Tanto assim que em 1947, segundo lembra um vespertino, ainda se fez uma derradeira importação de 40 dúzias de chapéus europeus, o que induz a crer na existência, àquela época, de quase meio milhar de caixas cranianas no Brasil. Verdade seja que o importador ainda guarda em sua loja nove chapéus — mais do que o suficiente para cobrir um ministério de capacidades, pois se são dez as pastas do governo, nem todas exigem de seus detentores esse ornamento civil.

A crescente procura do chapéu, assinalada agora, esbarra na dificuldade em obter pelo de coelho ou de castor, que são as matérias-primas dessa indústria. Os coelhos terão acelerado a fuga, ao saberem da nova moda; e os castores, quem já viu um castor na vida? Por falta de material, talvez se fabriquem chapéus-fantasmas, para cabeças-fantasmas. Ou simples forros e fitas, dispostos adequadamente em chapéus invisíveis, que a moda é ainda um fenômeno de sugestão, individual e coletiva. 

Mas deixemos este capítulo. Há outras novidades no setor da indumentária masculina, como por exemplo a opção entre o estilo italiano e o clássico, que o comércio está propondo. O italiano se apresenta assaz revolucionário, embora a revolução consista em mexer ligeiramente no caimento do ombro e na linha da cintura. Não chega a ser uma reforma social, nem mesmo uma reforma de caras, de que andamos saudosos; é um jeitinho aqui e outro ali, mas vale a intenção de mudar alguma coisa no homem, revelada pelos alfaiates de meia-confecção.

Se você reparar um pouco, verá que voltaram os punhos de abotoadura, que faziam o inferno e a dignidade de nossos avós. Ainda são moles, mas daqui a pouco surgirão num tecido semelhante ao compensado. Encontrei na rua alguns cidadãos que os exibiam com certo garbo; não iam a uma reunião social, iam ao batente: o uso da abotoadura pode trazer alguma satisfação nos dias que correm. 

Assim é o homem. Querem fazê-lo pré-encolhido, sanforizado, trubenizado, eletro-barbeado, psicanalisado, semi ou totalmente confeccionado. Mas ele reage, restabelecendo a solenidade medieval do chapéu, e não porque seja inverno ou a cabeleira sumiu, mas porque, mesmo sem cabeça, o homem sonha o sonho da existência e quer dispô-lo a seu modo, ter seus caprichos ou a ilusão de seus caprichos; e prefere ter mais trabalho ao vestir a camisa mas tirar desse trabalho uma distração ao aborrecimento de usá-la. 

Acompanho com o maior interesse os anúncios ilustrados dos magasins do Rio, e vejo em cada padrão novo de blusão ou camisa de lã, de cor espaventosa, um signo da alegria de viver, que insiste em desabrochar no homem.

carlos-drummond-de-andrade
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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