Imagens do ar
Meu amigo G. C., douto em pássaros e flores (e não só nessas ciências, mas o resto não vem ao caso), voltou esta semana do Espírito Santo, encantado com o que viu na residência de Augusto Ruschi, em Vitória. Os leitores conhecem este nome: é o de um jovem naturalista brasileiro, que muito cedo se consagrou à observação da natureza. Aos dez anos, já se embrenhava no mato para colher larvas de lepidópteros, que dispunha em caixinhas, no seu quarto, à espera da borboleta. O pai implicava: pra quê tanta caixinha com bicho nojento, meu Deus? (Eram umas 50). Um dia, o menino viu que tinham sido jogadas fora. Não se aborreceu, e informou suavemente ao pai: “Não adianta o sr. fazer isso. Vou preparar cem caixinhas, desta vez”. Aos 15 anos, o saudoso prof. Melo Leitão o descobriu e trouxe-o a estudar no Museu Nacional. Em resumo, Augusto Ruschi é hoje autoridade internacional em beija-flor, que aliás o bom padre Fernão Cardim, há séculos, confundia precisamente com borboleta; sabe milhões a respeito de orquídeas, e procede a estudos sérios sobre morcegos, como transmissores de moléstia a animais de criação.
O colibri é o maior amigo de Ruschi, cidadão que montou um museu particular, viaja a América inteira em missão científica e tem feito o possível para mitigar a aridez da vida brasileira, ao lembrar que o beija-flor existe, é uma festa de cores e consola os olhos cansados de tanta coisa feia que a chamada elite dirigente do Brasil todo dia nos oferece com o jornal da manhã e o pão dormido que aí vem de novo.
Beija-flor é ave sortida: v. pode escolher entre mais de 600 espécies e 70 gêneros, da Patagônia ao México, sendo que no Brasil estamos muito bem servidos dele. O maior vale uma andorinha, no tamanho; o menor pesa uma grama e 20, é uma hipótese de avião multicor parado no ar, Ruschi o possui em seus viveiros. As asas nervosas pousam-lhe na varanda e trançam em redor de sua vida. Deve ser bom viver cercado e compreendido por beija-flores cor de topázio, rubi, safira, esmeralda, ametista; de raios de sol, como lhes chamam os índios. Ruschi vai buscá-los de avião nos Andes, por exemplo, e para que suportem a viagem costuma anestesiá-los; poupa-os, assim, da desidratação e do cansaço, perigo mortal que o contínuo palpitar de asas lhes traria. O fragílimo corpo inerte vem envolto num saquinho, e 36 horas depois é despertado na casa de Vitória.
Ruschi fez mais. Fez luar em sua casa, instalando um tipo de iluminação indireta e suave, que corresponde à lua, e isso lhe permite observar os passarinhos à noite, sem assustá-los.
Para cativar colibris, ele usa três processos. O primeiro é uma vara metálica extensível, parecida com a de pescador, e em cuja extremidade coloca um pouco de visgo; ao mais ligeiro roçar de asa, o passarinho está preso, mas facilmente se desprende com éter. Outro processo é o laço feito de fio de cabelo, coisa tão delicada que lembra histórias de sonho e feitiço. O terceiro consiste no caboré. O caboré gosta de papar avezinhas em geral e colibris em particular. Ruschi pegou de caboré, morto, preparou-o e colocou-o num ramo de árvore. Depois, imita-lhe o pio. O beija-flor chega e nota a presença do inimigo; logo convoca outros beija-flores, e todos, iludidos, se atiram encarniçadamente ao combate; aí, qualquer rede pode apanhá-los em bando.
Outras notícias me deu G. C. sobre o naturalista, documentando sua proficiência, sua devoção à natureza, sua simplicidade, o que tudo somado significa para mim uma alta organização poética. Acho que com esse homem do Espírito Santo nós todos devemos aprender alguma coisa.
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O sr. Israel Pinheiro, um de nossos poucos homens públicos que cultivam o bom humor, leu o escrito sobre o redescobrimento de Brasília e telefonou a este cronista: “Está engraçado, mas há uma retificação: existe escola, sim, para os filhos de trabalhadores; não foi construído prédio especial, mas as aulas funcionam na sala do Conselho da Companhia, que se reúne naturalmente pouco”. Ótimo, Israel, e que tal se suprimíssemos o Conselho, e ficasse apenas a escola no lugar?