Imagens da rua
Parece mentira, mas no Dia da Árvore, logo aquela miudinha, infante e dona de meus zelos aparece mutilada, com todo um galho lascado e pendente. Tinha quatro folhas ao todo, agora tem uma. Era mais um projeto de árvore do que árvore propriamente, e se dispunha a cumprir as ordens da natureza com a humildade, a correção, o sigilo próprio dos vegetais, que crescem sem ambição ou vaidade de crescer, crescem por um estatuto, um mandamento terrestre. E não sei a quem culpar: se à excessiva badalação prévia da primavera, que derramou vento e chuva sobre a cidade, antes de conceder-lhe a graça de dias suaves; se a um feirante mais grosseiro, que não sabe tocar em qualquer objeto natural sem ofendê-lo; se a um desses pobres entes agressivos, que castigam nos troncos e nos animais encontrados ao acaso, não importa que agravos recebidos de uma família incompreensiva, de uma namorada cruel, de um patrão enfezado. E se soubesse, adiantaria? Que posso eu resmungar ao vento senão que ele destruiu alguma coisa ainda em estado de aspiração, quando coisas muito mais egrégias ou amadurecidas ou santas costumam ir de roldão à sua frente, tangidas pelo seu cajado de ar? Se ele não tem pena de casas e de vidas que nelas se entregam à confiança do sono, como exigir-lhe maior prudência diante de uma arvorezinha de passeio? E se foi o barraqueiro, quando armava ou desarmava sua tenda, continuando ele mesmo abarrotado de cuidados cotidianos, que não se desmancham como o toldo de sua vendinha, ou apenas cedem lugar a outros, como lhe ensinaria eu esta verdade nebulosa de que as plantas têm sua maneira de sofrer, e como lhe falaria do dever para com o solo e suas forças, suas manifestações, seus dons, quando tudo é tão confuso em torno de nós, e os deveres se entrelaçam com proibições, leis, fiscais, impostos, taxas, contrabandos, carências, espertezas, truques, baldrocas, discursos, promessas, ameaças? Não cabe mais nenhum dever no compartimento ético de cada um, e principalmente no dos mais modestos, dos menos dotados pela sorte ou pela política, dos que não vão à missa do Zica porque têm que dar duro no batente à hora desse ofício comovedor. E se foi um recalcado que arrancou à planta um pedaço de corpo magro e disposto a subir em paz, se foi um desajustado, um neurótico, um sujeito que a si mesmo se julga perverso e com maligno prazer se consagra à destruição, porque lhe falta um carinho de mão na testa, um médico, um pai, um professor, um amigo, uma bem-amada, uma coleção de caixa de fósforos, um objeto qualquer entre milhões, por que acusá-lo desse crime que é apenas uma tristeza acessória em sua vida? E se por milagre eu conseguisse do vento que não maltratasse mais o meu restrito patrimônio visual da calçada, e obtivesse dos agentes humanos garantia de que jamais tocariam num arbusto senão com infinita mansuetude e apenas para beijá- lo de leve, de que valeriam tais compromissos se esse fragmento esmagado não voltará ao tronco, se aquilo que destruímos pode ser lamentado mas não recomposto, substituído porém não reintegrado, e se só a terra mesmo tem autoridade para criar uma nova forma, porém com lentidão que não satisfaz o contemplador parado diante dessa coisinha menina e esfacelada? Quanto tempo leva uma árvore a afirmar-se? Quantos anos de química laboriosa, de transfusões, absorções, impregnações, silêncios, emanações, sínteses, ela exige? E quanto tempo resta ao seu amigo para esperar que uma árvore se torne adulta? As perguntas se desenrolam, sobem como um cipó fino, e acham resposta no tronco miúdo que, na calçada, lembra uma criança ferida.
P. S.: — O prof. Edgard Santos, reitor da Universidade da Bahia — que está saindo uma universidade de deveras, onde não apenas se transmitem noções, mas também se investiga e se cria nos domínios da arte e da ciência — comunicou-me que d. Clemente Maria da Silva-Nigra, mencionado há dias por este cronista, será o diretor do Museu de Arte Sacra, em instalação no antigo Convento de Santa Teresa, de Salvador, restaurado e adaptado para esse fim, como instituto universitário. É uma grata novidade, e o museu está de parabéns, pois esse beneditino tem como poucos o amor e a ciência das obras de arte religiosa.