Fonte: Caderno B, Jornal do Brasil, de 14/01/1981.

Hoje é um dia de solteirão. De manhã, chegou a governanta. É cozinheira, arrumadeira, lavadeira, mas, como vai cuidar dos negócios domésticos de um solteirão, terá que ser governanta. Preciso me desobrigar dessas tarefas que desempenho canhestramente: comprar mantimentos, varrer a casa, preparar meu café da manhã. Custei a conseguir alguém que fizesse essa parte, até que a doce Tânia me indicou uma agência onde se encontram boas babás. Se há ali quem cuide de bebês, haverá quem cuide de um escritor desprovido de habilidades, ou prendas, de todo gênero. Nunca exagerei ao confessar, e já fiz isso centenas de vezes, que sei apenas escrever, e olhe lá. Enumerar as coisas que sei fazer seria mais rápido e fácil do que o contrário, pois não sei: andar de bicicleta; guiar automóvel; fritar ovos; pregar um botão; cuidar de plantas: pregar um prego; passar roupa; engraxar sapato; trocar lâmpada; temperar salada; limpar vidraça, encerar os tacos; falar com aquela maquininha que recebe recados telefônicos; jogar sinuca, tênis, basquete, vôlei, pingue-pongue, xadrez, pôquer (sei apenas jogar damas, porém ninguém mais joga damas); abrir latas de conserva; cortar cutícula (corto porcamente as unhas); dar laço em gravata; patinar; esquiar; surfar; windsurfar; ler o Time; consultar dicionário (sempre me esqueço da palavra que estou procurando e me enamoro de vocábulos entrevistos na página errada); organizar agenda; redigir diários (entretanto, há anos mantenho um diário e espero que o queimem juntamente com o meu cadáver; e por favor, meu caro psicanalista, não use contra mim o rótulo cremófilo: já vi essa palavra fervilhando em mil fragmentos e ressonâncias no rosto de um defunto, como se o dr. Freud fosse um fabricante de moscas); desenhar; escrever cartas; interpretar mapas, termômetros, bússolas, gráficos, fitas métricas, balanças, relógios em algarismo romano, estatísticas, porcentagens; distinguir um pardal de um rouxinol; nomes de flor, planta, árvore; etc. etc. (Põe et cetera que estou mandando!)

Na hora do almoço, a governanta serviu peixe à milanesa, feijão-manteiga e arroz. Ela sabe cozinhar. Se tiver bom temperamento, se nossos signos combinarem, 80% dos meus problemas estarão resolvidos. (Porcentagem arbitrária: na minha cabeça, 80%, 120% e 17,5% são a mesma coisa, quer dizer: nada.) Depois do almoço, fiz a sesta em lençóis limpos, num quarto bem varrido, escutando o barulho da água na copa: isto aqui vai acabar virando um lar…

Agora, dois técnicos estão consertando o aparelho de TV. É um aparelho de televisão colorido e também um objeto parapsicológico. Durante a Copa do Mundo de 1978, a força do meu pensamento queimou as imagens do Brasil jogando mal; depois da Copa, a TV voltou a funcionar. Recentemente, o canal quatro desapareceu. Fui reencontrá-lo no canal três, mas até também a imagem sumiu, ficando apenas o som, e pifaram de vez os canais 11 e sete. Neste momento, os técnicos ligam o diabo da máquina e, como por milagre, as imagens reaparecem. Eles não podem pensar que estou mentindo, inventando um defeito que não havia, pois foram chamados e serão devidamente pagos. Espero que não cobrem caro. Eles desmontaram o aparelho e estão fuçando lá dentro. Vão colocar o canal quatro no número certo, único defeito que restou do enguiço geral…

Adoro ver televisão, embora não sinta falta dela. Gosto de ver os programas deitado na cama, comendo biscoito e bebendo chá, mas hoje mandei botar o aparelho na sala para que a governanta possa assistir a TV durante a noite. Tenho que pensar na governanta como em uma pessoa forçada pelas circunstâncias a confinar-se num espaço medíocre, em companhia de alguém que se intitula seu “patrão” e que vive por sua vez confinado nesse mesmo espaço medíocre, escrevendo e estudando. Seremos dois solitários aqui dentro desta casa, mas eu poderei receber os amigos e terei sempre uma namorada de plantão, enquanto ela haverá de se contentar com o sonho eletrônico.

Os técnicos cobraram uma nota preta. A vida está caríssima. Moro no coração de Ipanema, rodeado de barulhos infernais. Só posso trabalhar com as janelas fechadas. O ar condicionado não é dos mais poderosos, sendo necessário fechar todas as portas quando ele está funcionando. Mas só posso fechar todas as portas, isolando a governanta em seus limites, depois que ela estiver integrada neste ambiente. Nos próximos dias, portanto, me refrescarei com um pequeno e eficiente ventilador. Tão eficiente que os papéis estão voando, os papéis pungentes que devo estudar, a violência, a injustiça social, a carestia, os crimes…

Agora, tudo depende da governanta. Se ela estiver trabalhando comigo nos próximos meses, terei todo o meu tempo livre para fazer a única coisa que sei e que dá sentido à minha vida: escrever. 

jose-carlos-oliveira
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.