Fonte: Caderno B, Jornal do Brasil, de 26/01/1981.
Vamos parar de fumar? Estou convidando você — um leitor que, como eu, tenha chegado ao frenesi nas relações com o cigarro. Você para do seu lado, eu paro do meu. E nos encontraremos aqui, na crônica, a fim de trocar ideias sobre a experiência. Darei notícia do meu procedimento. Assim:
— Às dez horas, percebi que poderia estar fumando o meu último cigarro. Dali a uma hora, deveria sair de casa, na direção do meu giro habitual pela noite da zona sul. Pensei: “Hoje, fico. Hoje, ninguém me tira daqui”.
Às 11 horas, estava tranquilo. 60 minutos sem queimar um novo cigarro — e nenhuma ansiedade. Sobre a mesa, a tentadora silhueta de uma garrafa térmica cheia de café quente. Despejei seu conteúdo na pia. Lavei a garrafa. Fui ao banheiro e escovei os dentes. A pasta dental produz sensações frias na boca. Ora, eu sempre fumo em cima das sensações quentes produzidas pelo café ou pelo chá. O sábio Artur, outro dia, me alertou:
— Não há relação alguma entre o cafezinho e o cigarro. Eu comecei a parar de fumar, e nunca mais fumei, depois que separei as duas satisfações — a do café e a do cigarro. Continuo bebendo meu cafezinho, mas não preciso rebatê-lo queimando um cigarro.
Com a boca fria de hortelã, fui ler na cama. Decidi dormir sem fumar, coisa que não faço há anos. Pensei: “Talvez tomando um sonífero…” Recusei tal solução. Não faz sentido trocar um hábito por outro, um vício por outro. Ou eu durmo sem fumar, ou enfrento a insônia. Se no meio da noite for impossível continuar deitado, insone, por não ter fumado antes de dormir, então acenderei um cigarro. Quero apenas parar de fumar, pois já cheguei ao máximo da intoxicação por nicotina. Não quero a saúde convencional, as mágicas modernas: os furos na orelha, a acupuntura, os calmantes químicos. Não quero ficar mastigando jujubas, como fez Ronald Reagan. Não quero a cigarreira sadomasoquista que os suíços deram a Brejnev: de hora em hora, o mecanismo solta a tampa e o Camarada Brejnev pega um cigarro. Os suíços acreditavam na disciplina comunista do Camarada Brejnev; não acreditavam nas astúcias do fumante inveterado, e contudo foram estas que prevaleceram. Quando o mecanismo disparava a tampa, e os cigarros se ofereciam, o Camarada Brejnev pegava logo uns três, antes que a tampa se fechasse de novo. Ele fumava três cigarros, ludibriando a caixinha impiedosa que só lhe fornecia, teoricamente, um cigarro de hora em hora. Três cigarros por hora, em dez horas de atividade no Kremlin, são 30 cigarros, uma quantidade brutal para o velho Brejnev, já no limiar do enfisema pulmonar. De forma que ele adoeceu, andaram dizendo que estava à morte. Consultou uma curandeira soviética e se recuperou. Essa mulher certamente lhe ensinou meios mágicos com os quais ele conseguiu finalmente abandonar o cigarro.
Mas também não quero meios mágicos. Quero enfrentar o cigarro “de homem para homem”. Parar de fumar sem truques, sem curandeirismos, sem calmantes, sem violentar meu desejo de queimar lentamente um cigarrinho.... Deito-me com a boca fria de hortelã e durmo. Acordo de um sono profundo, às sete horas da manhã. Observo que minhas mãos estão trêmulas. Desde que parei de beber — dia 1° de fevereiro, agora, completarei dois anos inteiros de abstinência alcoólica — minhas mãos deixaram de tremer. Agora, estão trêmulas. Não é ainda a desintoxicação. A simples deliberação de abandonar o cigarro é que já está alterando o meu sistema nervoso.
Levanto-me para um novo dia. Vou lavar o rosto, e num gesto descoordenado, derrubo o copo onde estão as escovas e a pasta de dentes. O copo se arrebenta em mil pedaços. Penso: — Hoje à noite, vou à televisão entrevistar um psicanalista. Sou tímido, ficarei nervoso diante das câmeras. O nervosismo me fará desastrado; sou capaz de fazer perguntas, dizer coisas, que o psicanalista interpretará como atos falhos... É melhor não correr esse risco. Em resumo: começarei a não fumar amanhã. Hoje, ainda fumo.
Acendo o primeiro cigarro do dia. Em jejum. Tudo bem: desejei fumar e estou fumando. Já lhes disse que não pretendo me violentar. A solução para esse dilema será, talvez, voltar ao passado, reviver o meu primeiro encontro com o cigarro, quando estava com 14 anos de idade. Por que me vi fumando, assim sem mais nem menos, eu que até então não era um fumante?
Vamos buscar essas recordações lá no fundo da memória. Enquanto isso, no decorrer deste dia, fumarei normalmente. Amanhã, quando não irei à televisão enfrentar psicanalistas, começarei o processo de descondicionamento. Será um processo verbal. Tudo aquilo que acontece tem por baixo um discurso inteligível, um discurso pronunciável. Desataremos esse discurso. No fim dessa investigação, pretendo me apresentar como ex-fumante. Ou não. Ainda é cedo, o processo sequer se iniciou. Vamos ver se no final a vitória é minha, ou se vence o maldito e gostoso cigarro.