Tenho andado muito de táxi. Cada chofer é uma pessoa. Cada pessoa, uma novidade. Esse aqui vem de Higienópolis, no domingo ao meio-dia, e voltará para casa às três da tarde, a tempo de botar o pijama, abrir uma garrafa de cerveja e acompanhar pelo rádio Vasco vs. Botafogo. Este outro está indignado porque Zico passou a ganhar uma fortuna. Dou minha opinião:
— Ainda ontem, vocês deixaram Garrincha resvalar para a miséria. Ainda anteontem, vocês tinham pelo Garrincha maior admiração e amor do que têm hoje pelo Zico. Vocês são ingratos. Se o Zico não ganhar bem, o dinheiro arrecadado por sua presença em campo irá para o bolso de alguém. Dirão: “Vai para o clube”. E é verdade. Quando Zico não puder mais jogar futebol, o clube continuará com o dinheiro e Zico terá que ir sobreviver em outra freguesia. Zico tem dois irmãos que também jogam futebol, portanto ele conhece o problema melhor do que nós. Os irmãos dele não chegaram à categoria de craques excepcionais ou ídolos das multidões. Ora, Zico é um craque excepcional e um ídolo das multidões. Zico é tão grande quanto Garrincha. Portanto, faz muito bem o Zico em não se deixar garrinchizar pelo sistema futebolístico.
— Mas Garrincha deu pra beber... Quem bebe tanto quanto ele perde a fortuna, perde o respeito próprio, não tem um fim feliz…
— Garrincha bebe por desgosto. Aliás, depois de nos dar duas Copas do Mundo e uma infinidade de alegrias, Garrincha deveria ter todo o direito de se embriagar. Deveria ter dinheiro para curar a ressaca, dinheiro para fazer a sonoterapia de desintoxicação…
O chofer de táxi não admite sua culpa pessoal na decadência de Garrincha. No Brasil é sempre assim: aplaudimos o artista enquanto ele está na crista da onda. Depois, é como se ele nunca houvesse existido. Pelé só equilibrou suas finanças, tornando-se um multinacional triunfante, depois que os americanos o adotaram. Perdeu substância brasileira, nesse processo. Há esse travo de amargura na atual felicidade de Pelé.
Os choferes de táxi atualmente não se parecem com aqueles que assombravam os dias de um cidadão de São Paulo, de nome João. Esse João morava num terceiro andar da avenida São João. Um carioca de adoção, chamado Rubem, sempre que ia a São Paulo, hospedava-se no apartamento do João. Eram velhos camaradas. Uma tarde, estavam na sala bebendo cerveja e Rubem comentou:
— Engraçado, João... Há 20 e tantos anos somos amigos... Há 20 e tantos anos, quando venho a São Paulo, me hospedo com você... E há 20 e tantos anos, quando nos sentamos aqui nesta sala, observo que as janelas estão fechadas. Hoje, por exemplo, faz um calor infernal. Por que você não abre as janelas?
— De jeito nenhum.
— É alguma superstição?
— Não sou supersticioso.
— Você tem medo de vento encanado, de pegar um vento maroto no lombo e ficar tuberculoso?
— Uso camiseta por baixo da camisa. Sabedoria portuguesa, Não sou homem capaz de ser liquidado por um simples golpe de ar.
— Mas, então, por que não abre a janela?
— Por causa do chofer de táxi.
— Você tem algum inimigo que é chofer de táxi?
— Nenhum. Falo dos choferes de táxi em geral.
— Não entendi.
— Ah, não entendeu? Então vai entender. Suponhamos que eu deixe a janela aberta. Muito bem. Eis senão quando vem vindo lá na rua um táxi. O chofer vê a minha janela aberta... Ele salta do veículo... Ele pega um foguete de São João, um rojão desses que sobe assoviando e explode justamente dentro do meu apartamento. Eles acendem aquela bomba Caramuru e ela vem explodir aqui dentro, tumultuando a minha vida mansa.
Rubem achou que João estava exagerando. Argumentou:
— Você acha isso verossímil? Um chofer de táxi vem vindo na rua, talvez conduzindo um passageiro. Vê sua janela aberta. Encosta o carro, acende um rojão que sobe, assoviando, e vem estourar aqui dentro do seu lar. É isso?
— Justamente isso..
— Mas por que um chofer de táxi faria isso?
— Não sei... Só sei o seguinte: o chofer de táxi é capaz de tudo! Chofer de táxi é capaz de qualquer coisa! E é por isso que nunca abri nem pretendo abrir minhas janelas, mesmo quando o calor se apresenta insuportável como hoje.
Rubem escutou calado. João devia ter suas razões. E pensando bem... Se pensarmos friamente o problema, chegaremos à conclusão inevitável de que chofer de táxi é mesmo capaz de tudo!