⏤ Estou pobre ⏤ lamenta-se um homem da classe média. ⏤ Estamos pobres ⏤ lamentam-se, conjuntamente, esse homem e sua mulher.
Eles são da classe média. Mas o que é a classe média? Há anos tento me situar nessa categoria ⏤ eu que pertenço à classe média, sem dúvida ⏤ mas, por mais que me esforce, não consigo descobrir qual segmento da classe média a que pertenço. Porque a característica da classe média parece ser a fragmentação. Não somos a classe rica, nem a classe pobre, nem a classe miserável. Mas quem vê a nossa cara ⏤ adverte o provérbio ⏤ talvez não esteja vendo o nosso coração. A nossa figura produz bons fluidos visuais no espectador, nossos cabelos são tratados a xampu de primeira, as nossas unhas são embelezadas por manicuras, as nossas roupas são moderninhas, elegantes e confortáveis. O cabeleireiro que nos penteia, a manicura que nos desenha a unha, o balconista que nos vende a roupa não pertencem à classe média. O homem que fica o dia inteiro no saguão do edifício, abrindo e fechando a porta para nós, não pertence à classe média. Não pertence à classe média o homem que fabricou o nosso automóvel nem o homem que enche de gasolina o nosso tanque. É isso?
Se é assim, somos aquilo que temos: o automóvel, a televisão colorida, o telefone, a empregada doméstica, os prestadores dos mais variados serviços nas mais variadas circunstâncias de nossa vida. Somos aqueles que podem pagar.
Desgraçadamente, nos últimos tempos, não mais podemos pagar por tudo aquilo que define a nossa condição de membros da classe média. O automóvel e seus equipamentos estão custando muito caro. A gasolina aumentou (e o álcool, para aqueles que caíram no “golpe do álcool”). As duas vezes que jantávamos fora estão reduzidas a nenhuma vez, porque os restaurantes estão cobrando mais caro. A casa que alugávamos no verão, em Iguaba Grande, tornou-se proibitiva. A televisão colorida é o último reduto da nossa fantasia. Se ela quebra, ficaremos aprisionados nas quatro paredes do nosso lar de membros da classe média. É isso, então?
Ora, se a classe média é aquela que depende dos outros para existir, a classe média não existe. Ela aparenta existir. O existente digno desse nome tem um estilo de vida, pelo qual é reconhecido e identificado. A classe média carece de um estilo: o que ela tem é um padrão de vida. Esse padrão de vida é falso, porque se fundamenta em miragens publicitárias, e precário, porque só se mantém enquanto os ricos estiverem imensamente ricos e os pobres imensamente pobres. Se os ricos decidem que estão lucrando 800% a menos do que merecem, a classe média sofre as consequências. Se os pobres se cansam de serem imensamente pobres, a classe média se apavora: vem aí o comunismo.
Êta classezinha infeliz, produto de uma ilusão que é, menos ainda, uma burla existencial!
Uma vez que os fatos econômicos estão precipitando o desmascaramento dessa fantasia que se chama “poder aquisitivo de classe média”, convém que a classe média se prepare para reformular seus valores. Isto seria benéfico para toda a sociedade. A reformulação desses valores não se faz com lápis e papel na mão, comprimindo o orçamento doméstico e mantendo a ilusão intocada. É preciso compenetrar-se de que qualquer ilusão, pombas, é ilusória. A classe média ganha o suficiente para viver melhor que a classe operária, em qualquer circunstância. O que não pode, por não ter meios para isso, é continuar vivendo tão bem quanto os ricos. Porquanto a ilusão deixou de ser financiável.
Não se trata de vender o automóvel e comprar uma bicicleta, e sim de educar as crianças de outra maneira. Porque quando o pai diz que é rico, o filho quer viver como filho de pai rico. É preciso ensinar a essas crianças que a riqueza de papai e mamãe era ilusória, e que não se pode viver todos os dias do ano como se Papai Noel existisse. Tanto vale uma casa de verão em Iguaba Grande quanto um passeio dominical na Quinta da Boa Vista, desde que os membros da família estejam unidos e felizes.
Se você é um pai que se equivocou na vida, adotando falsos valores, não menospreze os seus filhos, presumindo que eles vão preferir o equívoco, a qualquer preço, em prejuízo da verdade social.