Meu caro Pagé: Você se lembra do nosso amigo Rubionis quando nos dizia, compungido e sério que não acreditava em Deus mas tinha uma grande devoção por Nossa Senhora? Pois eu, em matéria de alma do outro mundo, só acredito no demônio, e isso porque, desde criança, vejo demônios, e ao longo de minha vida vou sendo incidentemente vítima de conspirações diabólicas que me põem nocaute, que de mim fazem um trapo, uma pena, um nada. Pois lhe mando este bilhete para contar-lhe que nestes últimos dias os demônios vêm fazendo um festival em minha alma e em minha vida, atrapalharam-me a saúde, o espírito, as ideias e os negócios, que este também os tenho, embora esteja estabelecido na praça com uma loja muito modesta que vende palavras a preço de ocasião. O fato é que entrei numa área errada e sombria, que a experiência já me ensinou que não é eterna, mas pode durar uma semana ou duas. De qualquer forma vou ao Maracanã daqui a pouco, é sempre um consolo, embora mal acompanhado; pois um deles, pelo menos, invisível para os outros e de olhar frio para mim, também comparecerá ao estádio. Se a gente durante esses períodos endemoninhados ainda pelo menos pudesse ficar quieto, sem tomar conhecimento do resto, das obrigações do trabalho, das exigências do mundo urbano, já seria uma grande coisa. Mas não pode, é preciso aguentar a mão, custe o que custar. Um dia desses abrirei os meus olhos e verei que os demônios me deixaram e foram atormentar outro, dane-se. Enquanto isso não acontecer (mas que seja breve), fico de tenda fechada, abúlico e palerma, fumando como um cão e triste como um paquiderme. Mas não conte nada a ninguém, pois as nossas desavenças com a Terra são simplesmente nossas, ninguém tem nada com isso, além de uns poucos amigos que têm o direito de simpatizar com essas crises de idiotia melancólica. E aqui fico com um abraço de uma velha amizade que se renova com o tempo.