Com vocês, Antônio Maria. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996, pp. 167-168

Deus foi cruel, por demais, para com a lagoa Rodrigo de Freitas. Escreveu, ao destino de suas águas: "De tempos em tempos, havereis (Deus só fala na segunda pessoa do plural) de cheirar mal". E a lagoa, tão linda, carregou a praga que se vem cumprindo, implacavelmente, para o resto da vida.

É como uma bela mulher, que sofre de mau hálito. Tão bela e rejeitada!

Hoje, por exemplo, a lagoa acordou mais linda que nunca. O vento, de asas soltas, voando alto, desce depois crispando a crista de suas águas. Os pássaros a sobrevoá-la felizes e embriagados de luz e liberdade. As borboletas em seu tonto esvoaçar, de folha em folha, ao mato ralo das margens. E alguns jovens namorados, que faltaram às aulas, passeando de mãos dadas na calçada em frente ao morro da Catacumba. A lagoa acordou de boa boca.

Viva Deus! Não sei de lugar mais bonito, em toda esta cidade. Vim descobri-lo tarde, mas certamente só o deixarei quando me mudar de vez para Petrópolis. A lagoa, de manhã, sua primeira água é cinza. Um cinza bem fosco. Ao meio-dia, reverdece aquele verde de piperment. Às duas, começa a azular-se. E se acinzenta, outra vez, na agonia da tarde, na hora em que as meninas do orfanato rezam suas rebeldes ave-marias. Depois enegrece, some e só volta no dia seguinte bem cedinho, no cio luminoso da manhã, quando é despertada pela sadia algazarra dos remadores do Vasco.

À beira da lagoa moram os homens mais ricos e os homens mais pobres da cidade. As mulheres mais saudáveis e as mais doentes. As crianças mais bem vestidas e as mais nuas. Tudo os intriga e separa. A desdita exagerada dos pobres atinge o estado de graça dos ricos. A prosperidade extralimitada dos ricos faz mal à fome dos favelados do morro da Catacumba. Só uma coisa os une: a lagoa, que todos gostam de olhar, com a mesma humildade, o mesmo consolo e o mesmo enlevo, a mesma fortuna. Só a beleza nivela os homens economicamente desnivelados.

Se Deus fosse menos rancoroso, receitaria um remédio de bochechar para o hálito da lagoa.

antonio-maria