8 jun 1960

Poesia perdida...

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Fonte: Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002, pp. 113-114

Houve um tempo, tive uma namorada.

Sou, hoje, um homem tão velho e tão sem razão, que tenho imensa vergonha de falar na primeira pessoa. Mas outros falam, e isso consola. O Braga, por exemplo, esta semana, em Manchete, está atrás de uma árvore, entre um café e um açougue, com a barba meio crescida, falando a uma mulher da janela alta. Dirão vocês: "O Braga pode." Direi eu, num protesto: "Braga canta seus amores, também vou cantar os meus."

Sem datas e sem nomes, conta-se a história mais ou menos assim.

Nós éramos amigos e, um dia, bêbedos, achamos que éramos namorados. Foi tudo, então, muito feliz. Houve rosas, canções e falta de ar. Ciúmes, houve também, mas infundados, sem cenas. Ciúme no peito, calado, opresso, sempre de receio, nunca de traição, que passava depressa num simples olhar de fidelidade.

Ah, amigos, interrompendo a história acima, devo dizer que a fidelidade é tão bonita! Não a fidelidade dos tratos, da prestação de contas e compromissos. Não a fidelidade formal do "só vou se você for". Nunca a fidelidade discutida, dos sacrifícios alegados. Mas a fidelidade-estado, sem juros, sem normas estabelecidas, sem uma só palavra (se possível), de que só são capazes as pessoas simples. Que coisa complicada, a simplicidade! Nós éramos fiéis simplesmente.

Foi tudo, realmente, muito bonito, até que outro dia, lúcidos, descobrimos que éramos amigos. E continuamos sendo.

Acabou-se, então, a minha poesia. Posso ter tido humor, coragem, densidade, altruísmo. Poesia, nunca mais. Aquele íntimo convencimento de saber e poder. Aquela capacidade de possuir, de legar, de transferir, de esquecer, de lembrar, de prever, de multiplicar, de dividir... Aquela segurança de (numa só palavra) "criar", isto, que é a Poesia, nunca mais. Para sempre, seja bem ou mal, mau ou bom, nunca mais.

Recolhido ao seu quarto, enchendo laudas imensas de papel-trabalho, sem zelo de si e de ninguém, aflitivamente de óculos, resta um homem que, sem se desincumbir, rompeu os graves compromissos com e da poesia. Um homem mais forte e mais livre. Indiscutivelmente, melhor.

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