Alto da Boa Vista & Floresta

 

Fonte: Pernoite: crônicas. Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1989, pp. 78-80. Publicada, originalmente,  em Manchete, de 10/01/1953.

Quando acaba a Conde de Bonfim, você entra à direita e começa a subir. A noite está quente e, se por graça de Deus, seu automóvel é de capota de pano, é bom baixar. A moça vai reclamar, em nome do penteado, mas é necessário argumentar que os cabelos dela são lindos, voando; que um lenço, por mais bem-posto que seja, fará com que sua cabeça fique parecida com a dos aviadores antigos – com as cabeças de Sacadura Cabral e Gago Coutinho.

À margem da ladeira, na grama lisa que acompanha o asfalto, casais tijucanos trouxeram travesseiros e estão tirando partido da noite calorenta. De barriga para cima, mandam seus problemas ao inferno e dizem frases da marca de "nada mais lindo que o céu do meu país". Depois, quando chegam em casa, é que vão ver o corpo todo picado de micuim.

São grandes e bonitas estas casas da beira do caminho. Gente que se preza tem chalé de verão por essas bandas. Jardim, piscina, um manga-larga para o passeio de tarde, uns dois ou três automóveis para ir buscar boatos na cidade, rede no terraço, canastra, buraco, passeinho ali por perto para importunar os casais nos automóveis parados. Quando o seu carro passa pelo Sacré Coeur, a moça que vai ao seu lado toma um jeito de saudade e diz sempre: "foi aqui que eu estudei" e conta uns três ou quatro casos, onde aparecem nomes já manjados de algumas freiras. Não satisfeita, em favor da estirpe, a moça dirá que esses colégios são rigorosíssimos, que só aceitam meninas das melhores famílias – e contará, com a revolta do uso, o caso de Bibi Ferreira, que não foi aceita porque o pai era artista. Aí, depois do show de pedigree, você chegou ao portão grande da Floresta.

Cheiro de mato e de flor. Vem a vontade de morar uns anos por aqui, sem sair daqui e, com o tempo, ficar um pouco vegetal. Não ter defluxo, axilose, pé chato, afta, caspa e dor de dente. Neste portão entrou um monge – há uns três anos e virou árvore ou zumbi, talvez, mas ninguém soube dele nunca. Agora, entram centenas de namorados, pretextando a noite quente, com as melhores intenções deste mundo, sentido o cheiro da rosa que desabotoou de manhã e ouvindo o canto esparso de passarinhos com insônia. Surgem centenas de placas mostrando os caminhos e você escolhe uma para seu guia: "Gruta de Paulo e Virgínia". Uma capela, à direita, dá margem a que se fale em Cândido Portinari – assunto seguro durante meia hora (lá dentro, há um painel de Candinho). Então, você pode dizer uma porção de coisas interessantes sobre pintura. Num brilhante a propósito, é conveniente citar o caso de Van Gogh, que cortou a orelha e deu a uma rapariga. Sobre Gauguin, é aconselhável não sair do livro Um gosto e seis vinténs, carregando um pouco a narração de sua morte, com a face leonina, destruindo, nas chamas, sua pintura, toda ela feita sobre motivos e modelos do Taiti. Depois, o nosso Picasso. Frisar bem que se trata de comunista, embora leve uma vida de burguês. Aproveitando, fale, com apetite, na esposa de Picasso, provocará um certo ciúme na moça-toda-ouvidos. De Picasso, pule para Pancetti. Foi marujo, morou na Itália, é tio de Isaurinha Garcia, sofre de tísica, apaixona-se com imensa facilidade e é doutor em marinhas. Você dará uma nota de funda erudição se lançar um foguete assim: "eu gosto das marinhas, mas os melhores quadros dele são os pintados em Campos de Jordão". Depois, num fecho de ouro, lamente a doença de Matisse e terá passado brilhantemente pela igrejinha da Floresta. À sua frente, continuará a placa da Gruta de Paulo e Virgínia, chamando para um lugar que nunca chega. Aqui e ali, um barulhinho de fonte. Depois, uma casa toda vermelha, proporcionando à moça o direito de exclamar: "esta é uma pinta de sangue na floresta". Nessa altura, o lirismo é inevitável. Será de bom tom você dizer de cor, tirando a mão direita da direção, aqueles versos de Paulo Mendes Campos:

O instante é tudo para mim, que ausente,

Do segredo que os dias encandeia

Me abisma na canção que pastoreia

As infinitas nuvens do presente...

Ao fim desses versos, a moça tem o direito de suspirar e dizer uma frase da marca de: "a noite é tão noite". E estará tudo sem jeito. Os caminhos da Floresta da Tijuca são redondos, inacabáveis e nunca levam à Gruta de Paulo e Virgínia. Não são caminhos, são pretextos. E você os segue, sem pensar no assalto que está a dois minutos e a um metro de você. Sem saber que essa moça é um abismo. Sem atentar para os canhotos do seu livro de cheques. E você continuará, até que o ponteiro da gasolina descanse no suporte à esquerda do mostrador, até que o carro tussa e pare. Ah, além daquele monge, que virou flor, pelo portão da Floresta passou muita gente, em clima de namoro suave e amigação em começo. Todos, depois de dar muitas voltas, saíram na Gávea Pequena pelos portões do fundo. Todos, menos o monge, que virou flor.

antonio-maria