A crônica morreu ou está morrendo? Esta pergunta foi feita exatamente há vinte anos, em março de 1972, a Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade. Leitura fácil, o leitor hoje prefere a televisão e outros meios de comunicação, declarou Paulo Mendes Campos.

A crônica não é bem um gênero literário, disse Fernando Sabino. É uma coisa simples, amena. Hoje vivemos uma época de comunicação agressiva. O leitor se concentra menos em amenidades. Não há mais lugar nem para o romance tradicional, a obra de pura ficção. Pessoalmente, nunca quis ser cronista. Sempre quis ser ficcionista. Me sinto como o atleta que treinou para um recorde e, quando chega o momento, a competição foi suspensa.

Eu nunca tinha pensado na morte da crônica, disse Rachel de Queiroz. Pode ser uma questão de maré alta e maré baixa. É como o soneto. Há vinte anos, era uma heresia. Agora está voltando à moda. O fato é que nós, cronistas, não tivemos sucessores. É um gênero que se esgota, começa a se repetir e cansa. Hoje lê-se menos e pior. Ninguém tem tempo para as chamadas amenidades.

Drummond, pessimista por natureza, esquivou-se de responder à pergunta. Fazia prosa de jornal para ganhar a vida, disse. Já a Clarice Lispector foi taxativa: quando comecei, não sabia fazer crônica. E ainda não sei. Pelo menos como é feita no Brasil. Não sou cronista, mas acho que a televisão prejudicou muito a crônica. Escrevo no jornal porque preciso trabalhar.

Agora o Nelson Rodrigues: de vez em quando, chega um e mata um gênero literário. Anunciaram até a morte da palavra. A verdade é que ninguém morreu. Nem o romance, nem a poesia, nem o teatro, nem a crônica. Se o público abandonou certos cronistas, é porque nada tinham a dizer. O silêncio lhes assenta muito bem. Agora uma curiosidade: todos citaram o Rubem Braga, menos o Nelson. Existem o Rubem e os imitadores do Rubem, disse o Fernando Sabino. Crônica é um gênero que o Rubem Braga criou, disse a Clarice. Bom, e o Rubem? O Rubem resmungou qualquer coisa que ninguém entendeu.

otto-lara-resende
x
- +
Array
(
    [@header] => Array
        (
            [content_id] => 5914
            [slug] => a-defunta-como-vai
            [image] => 
            [baseDate] => 1992-03-22
            [type_id] => CreativeWork
            [dateCreation] => 2018-07-12 13:29:34
            [creator] => 1
            [prop_name] => A defunta, como vai?
            [prop_description] => 
            [prop_text] => 

A crônica morreu ou está morrendo? Esta pergunta foi feita exatamente há vinte anos, em março de 1972, a Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade. Leitura fácil, o leitor hoje prefere a televisão e outros meios de comunicação, declarou Paulo Mendes Campos.

A crônica não é bem um gênero literário, disse Fernando Sabino. É uma coisa simples, amena. Hoje vivemos uma época de comunicação agressiva. O leitor se concentra menos em amenidades. Não há mais lugar nem para o romance tradicional, a obra de pura ficção. Pessoalmente, nunca quis ser cronista. Sempre quis ser ficcionista. Me sinto como o atleta que treinou para um recorde e, quando chega o momento, a competição foi suspensa.

Eu nunca tinha pensado na morte da crônica, disse Rachel de Queiroz. Pode ser uma questão de maré alta e maré baixa. É como o soneto. Há vinte anos, era uma heresia. Agora está voltando à moda. O fato é que nós, cronistas, não tivemos sucessores. É um gênero que se esgota, começa a se repetir e cansa. Hoje lê-se menos e pior. Ninguém tem tempo para as chamadas amenidades.

Drummond, pessimista por natureza, esquivou-se de responder à pergunta. Fazia prosa de jornal para ganhar a vida, disse. Já a Clarice Lispector foi taxativa: quando comecei, não sabia fazer crônica. E ainda não sei. Pelo menos como é feita no Brasil. Não sou cronista, mas acho que a televisão prejudicou muito a crônica. Escrevo no jornal porque preciso trabalhar.

Agora o Nelson Rodrigues: de vez em quando, chega um e mata um gênero literário. Anunciaram até a morte da palavra. A verdade é que ninguém morreu. Nem o romance, nem a poesia, nem o teatro, nem a crônica. Se o público abandonou certos cronistas, é porque nada tinham a dizer. O silêncio lhes assenta muito bem. Agora uma curiosidade: todos citaram o Rubem Braga, menos o Nelson. Existem o Rubem e os imitadores do Rubem, disse o Fernando Sabino. Crônica é um gênero que o Rubem Braga criou, disse a Clarice. Bom, e o Rubem? O Rubem resmungou qualquer coisa que ninguém entendeu.

[prop_publishingPrinciples] => [prop_sameAs] => [relations] => Array ( [ImageObject] => Array ( [contents] => 1 [relations] => 1 ) [Organization] => Array ( [contents] => 1 [relations] => 1 ) [Periodical] => Array ( [contents] => 1 [relations] => 1 ) [Person] => Array ( [contents] => 1 [relations] => 1 ) [Place] => Array ( [contents] => 1 [relations] => 1 ) [Thing] => Array ( [contents] => 2 [relations] => 2 ) [DataCatalog] => Array ( [contents] => 2 [relations] => 2 ) ) ) [dateBegin] => Array ( [0] => Array ( [properties_id] => 49229 [content_id] => 5914 [type_id] => CreativeWork [language_id] => pt [property_id] => dateBegin [label] => 1992-03-22 ) ) [datePublished] => Array ( [0] => Array ( [properties_id] => 49228 [content_id] => 5914 [type_id] => CreativeWork [language_id] => pt [property_id] => datePublished [label] => 22 mar. 1992 ) ) [name] => Array ( [0] => Array ( [properties_id] => 49227 [content_id] => 5914 [type_id] => CreativeWork [language_id] => pt [property_id] => name [label] => A defunta, como vai? ) ) [text] => Array ( [0] => Array ( [properties_id] => 81225 [content_id] => 5914 [type_id] => Text [language_id] => pt [property_id] => text [label] =>

A crônica morreu ou está morrendo? Esta pergunta foi feita exatamente há vinte anos, em março de 1972, a Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade. Leitura fácil, o leitor hoje prefere a televisão e outros meios de comunicação, declarou Paulo Mendes Campos.

A crônica não é bem um gênero literário, disse Fernando Sabino. É uma coisa simples, amena. Hoje vivemos uma época de comunicação agressiva. O leitor se concentra menos em amenidades. Não há mais lugar nem para o romance tradicional, a obra de pura ficção. Pessoalmente, nunca quis ser cronista. Sempre quis ser ficcionista. Me sinto como o atleta que treinou para um recorde e, quando chega o momento, a competição foi suspensa.

Eu nunca tinha pensado na morte da crônica, disse Rachel de Queiroz. Pode ser uma questão de maré alta e maré baixa. É como o soneto. Há vinte anos, era uma heresia. Agora está voltando à moda. O fato é que nós, cronistas, não tivemos sucessores. É um gênero que se esgota, começa a se repetir e cansa. Hoje lê-se menos e pior. Ninguém tem tempo para as chamadas amenidades.

Drummond, pessimista por natureza, esquivou-se de responder à pergunta. Fazia prosa de jornal para ganhar a vida, disse. Já a Clarice Lispector foi taxativa: quando comecei, não sabia fazer crônica. E ainda não sei. Pelo menos como é feita no Brasil. Não sou cronista, mas acho que a televisão prejudicou muito a crônica. Escrevo no jornal porque preciso trabalhar.

Agora o Nelson Rodrigues: de vez em quando, chega um e mata um gênero literário. Anunciaram até a morte da palavra. A verdade é que ninguém morreu. Nem o romance, nem a poesia, nem o teatro, nem a crônica. Se o público abandonou certos cronistas, é porque nada tinham a dizer. O silêncio lhes assenta muito bem. Agora uma curiosidade: todos citaram o Rubem Braga, menos o Nelson. Existem o Rubem e os imitadores do Rubem, disse o Fernando Sabino. Crônica é um gênero que o Rubem Braga criou, disse a Clarice. Bom, e o Rubem? O Rubem resmungou qualquer coisa que ninguém entendeu.

) ) [identifier] => Array ( [0] => Array ( [properties_id] => 49226 [content_id] => 5914 [type_id] => CreativeWork [language_id] => pt [property_id] => identifier [label] => 030806 ) ) [textSearch] => Array ( [0] => Array ( [properties_id] => 49230 [content_id] => 5914 [type_id] => CreativeWork [language_id] => pt [property_id] => textSearch [label] => 22.3.1992 A defunta, como vai? Domingo 7 RIO DE JANEIRO — A crônica morreu ou está morrendo? Esta pergunta foi feita exatamente há 20 anos, em março de 1972, a Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade. Leitura fácil, o leitor hoje prefere a televisão e outros meios de comunicação, declarou Paulo Mendes Campos. A crônica não é bem um gênero literário, disse Fernando Sabino. É uma coisa simples, amena. Hoje vivemos uma época de comunicação agressiva. O leitor se concentra menos em amenidades. Não há mais lugar nem para o romance tradicional, a obra de pura ficção. Pessoalmente, nunca quis ser cronista. Sempre quis ser ficcionis-ta. Me sinto como o atleta que treinou para um recorde e, quando chega o momento, a competição foi suspensa. Eu nunca tinha pensado na morte da crônica, disse Rachel de Queiroz. Pode ser uma, questão de maré alta e maré baixa. E como o soneto. Há 20 anos, era uma heresia. Agora está voltando à moda. O fato é que nós, cronistas, não tivemos sucessores. É um gênero que se esgota, começa a se repetir e cansa. Hoje lê-se menos e pior. Ninguém tem tempo para as chamadas amenidades. Drummond, pessimista por natureza, esquivou-se de responder à pergunta. Fazia prosa de jornal para ganhar a vida, disse. Já a Clarice Lispector foi taxativa: quando comecei, não sabia fazer crônica. E ainda não sei. Pelo menos como é feita no Brasil. Não sou cronista, mas acho que a televisão prejudicou muito a crônica. Escrevo no jornal porque preciso trabalhar. Agora o Nelson Rodrigues: de vez em quando, chega um e mata um gênero literário. Anunciaram até a morte da palavra. A verdade é que ninguém morreu. Nem o romance, nem a poesia, nem o teatro, nem a crônica. Se o público abandonou certos cronistas, é porque nada tinham a dizer. O silêncio lhes assenta muito bem. Agora uma curiosidade: todos citaram 0 Rubem Braga, menos o Nelson. Existem o Rubem e os imitadores do Rubem, disse o Fernando Sabino. Crônica é um gênero que o Rubem Braga criou, disse a Clarice. Bom, e o Rubem? O Rubem resmungou qualquer coisa que ninguém entendeu. ) ) [dateScheduled] => Array ( [0] => Array ( [properties_id] => 81520 [content_id] => 5914 [type_id] => Date [language_id] => pt [property_id] => dateScheduled [label] => 2019-04-07 ) ) [author] => Array ( [Person] => Array ( [0] => Array ( [relation_id] => 20480 [content_id] => 5895 [property_id] => author [inpoint] => [outpoint] => [position] => [order] => [creator] => 1 [direction] => 0 [type_id] => Person [content_creator] => 1 [label] => Otto Lara Resende [name] => Otto Lara Resende [slug] => otto-lara-resende [image] => 2018-08-13/37b6218f6dbd84d15669d0c83d376d3a[800x800].jpg ) ) ) [relatedTo] => Array ( [Thing] => Array ( [0] => Array ( [relation_id] => 36277 [content_id] => 5745 [property_id] => [inpoint] => [outpoint] => [position] => [order] => [creator] => 9458 [direction] => 0 [type_id] => Thing [content_creator] => 1 [label] => Literatura [name] => Literatura [slug] => literatura [image] => ) [1] => Array ( [relation_id] => 36276 [content_id] => 5698 [property_id] => [inpoint] => [outpoint] => [position] => [order] => [creator] => 9458 [direction] => 0 [type_id] => Thing [content_creator] => 1 [label] => Crônica [name] => Crônica [slug] => cronica [image] => ) ) [ImageObject] => Array ( [0] => Array ( [relation_id] => 20482 [content_id] => 5915 [property_id] => relatedTo [inpoint] => [outpoint] => [position] => [order] => 1 [creator] => 1 [direction] => 0 [type_id] => ImageObject [content_creator] => 1 [contentUrl] => 2018-07-12/9f135e8ac627cc491a1b78b81ccc068f.jpg [width] => 2500 [height] => 2659 [label] => 030806.jpg [name] => 030806.jpg [slug] => 030806jpg [image] => 2018-07-12/fb83fb5e2313086dc2749050f34f70d3.jpg ) ) [DataCatalog] => Array ( [0] => Array ( [relation_id] => 36668 [content_id] => 12625 [property_id] => relatedTo [inpoint] => [outpoint] => [position] => [order] => [creator] => 12623 [direction] => 0 [type_id] => DataCatalog [content_creator] => 12623 [label] => Sim [name] => Sim [slug] => sim [image] => ) [1] => Array ( [relation_id] => 36536 [content_id] => 12606 [property_id] => relatedTo [inpoint] => [outpoint] => [position] => [order] => [creator] => 12324 [direction] => 0 [type_id] => DataCatalog [content_creator] => 12324 [label] => lalala [name] => lalala [slug] => lalala [image] => ) ) [Periodical] => Array ( [0] => Array ( [relation_id] => 20481 [content_id] => 5896 [property_id] => isPartOf [inpoint] => [outpoint] => [position] => [order] => [creator] => 1 [direction] => 0 [type_id] => Periodical [content_creator] => 1 [label] => Folha de S.Paulo [name] => Folha de S.Paulo [slug] => folha-de-spaulo [image] => ) ) ) [locationCreated] => Array ( [Place] => Array ( [0] => Array ( [relation_id] => 20479 [content_id] => 5894 [property_id] => locationCreated [inpoint] => [outpoint] => [position] => [order] => [creator] => 1 [direction] => 0 [type_id] => Place [content_creator] => 1 [label] => São Paulo - SP [name] => São Paulo - SP [slug] => sao-paulo-sp [image] => ) ) ) [sourceOrganization] => Array ( [Organization] => Array ( [0] => Array ( [relation_id] => 20478 [content_id] => 5809 [property_id] => sourceOrganization [inpoint] => [outpoint] => [position] => [order] => [creator] => 1 [direction] => 0 [type_id] => Organization [content_creator] => 1 [label] => Instituto Moreira Salles [name] => Instituto Moreira Salles [slug] => instituto-moreira-salles [image] => ) ) ) )