Uma gênia. Posso falar porque não é do meu sangue. Um pingo de gente e esperta como ela só. Observadora, com essa aí ninguém tira farinha. Você é muito perspicaz, digo. Ela cai na gargalhada. Dedo em riste, me aponta à execração pública. Me sinto um idiota, tal a exuberância com que ri e gargalha. O jeito é achar graça. E rolamos de rir. Perspicaz. Eta palavrinha difícil!
Cessado o frouxo de riso, quer saber o que é perspicaz. A rima se intromete e me sai a palavra sagaz. Perspicaz sagaz. Sagaz perspicaz. Agora é que destroncou mesmo a língua. Por ela tenho de repetir mil vezes. Incansável. Sagaz perspicaz. Perspicaz sagaz. Por que é que você está falando tão complicado? Insiste. Quer mesmo saber. Estou falando como falo todo dia. Não, senhor. Você hoje está muito perspicaz.
É uma gozadora, essa capetinha. Tomo horror a tudo que cheire a perspicácia. A mim também a palavra já me soa esquisita. Por que é que logo agora fui usá-la? Você é uma menina muito esperta. Inteligente. Eu sei, diz ela. Depois recua e me olha de esguelha. Você podia ter dito só isto, não podia? Não precisava inventar esse tal de perspicaz. E esconde sílaba por sílaba, sarcástica. Mas o melhor é enxotar esta palavra. Vai ser vaia na certa. Sarcástica, não.
Menina irônica, Deus me livre. Não, não é. Reconheço que é engraçada. Tem esse pique ágil. Pega no ar o que digo. Adivinha o que vou dizer. Me desafia: você pensou, não pensou? Entrego os pontos: pensei. Não disse, mas pensei. Vitoriosa, ela dá um salto, some. Reaparece sisuda por um minuto e se senta, os bracinhos cruzados. Mais brejeira do que nunca. Mas não sou doido de dar o braço a torcer. Brejeira não sai da minha boca. Chega por hoje a perspicácia.
Aqui pra nós, que ninguém nos ouça, estou exausto. E a peralvilha aí, zero quilômetro. Mergulho na leitura, desencorajo qualquer aproximação. Ela me cutuca, sem cerimônia. Sabia que foi o Cristóvão Colombo que descobriu a América? Escola adiantada, digo eu. Escola, não. Sou eu que sou adiantada. Nada convencida. E me cutuca de novo. Sei cantar o Hino Nacional, me diz. Eu na minha, nem te ligo. Ela: inteirinho. E aí canta! Desafina um pouco, mas canta. De cabo a rabo, a pátria amada gentil. É a futura Fafá de Belém.