Ouça a crônica de Otto Lara Resende na voz do cantor e compositor Bruno Cosentino.

 

Eu é que não vou falar mal do trópico. Todo clima tem vantagens e desvantagens. Tal e qual as quatro estações do ano em qualquer parte do mundo. Mas aqui, na nossa latitude, até os elementos da natureza de fato se ressentem de uma certa ordem. Dias e dias daquele calorão e, súbito, uma onda de frio. Tudo pode acontecer. Um temporal de todo tamanho, verdadeira calamidade pública. A enchente paralisa o trânsito, instala o caos.

Águas inimigas, até a lagoa fica malcomportada. Falo da lagoa Rodrigo de Freitas, minha vizinha. Você pode não morar na praia, nem ver o mar. Mas ele está aí, nervoso, impaciente como ele só. Sempre recomeçado, como diz o poeta, mas agora, com o mau tempo, está é a fim de acabar com tudo. Vem de lá, já encrespada pelas ondas, essa ventania histérica que, à noite, agarra o prédio pelas orelhas e o sacode sem dó nem piedade. Portas, janelas e vidraças, tudo estruge e estremece.

De uns tempos pra cá, dei pra ter medo de tempestade. Seu desvairado azorrague no encalço de um vento grosso e quente que nem sabe em que direção sopra. Desfolha a rosa dos ventos. Num minuto as gordas gotas da bátega inundam a rua, fecham o caminho. Não há céu em cima da minha cabeça, nem chão embaixo dos meus pés. É o dilúvio. Pouco importa se é dia. O Sol se retira, agastado, para não ver esse rude espetáculo. Tenha a santa paciência, mas isto aqui, se ainda é um trecho da cidade, já nenhum compromisso tem com a civilização. Aqui começa o sertão chamado bruto.

Tudo pode acontecer nesse anfiteatro em que a barbárie vai sendo encenada segundo um feroz improviso. Santo Deus, é o fim do mundo, penso eu, bicho da terra tão pequeno ― e sem abrigo, ao léu. Sabe-se lá como, de repente mais uma vez estou salvo. Deo gratias. Daqui a pouco, dissipada a noite, sobrevém um dia novinho em folha. A luz cintila nas cicatrizes e as dissimula. Até o velho clichê da natureza indiferente traz um toque inaugural. A vida é bela, eia!

Sim, a vida é bela, mesmo com essa chuvinha manhosa, que convida à modorra e à vadiação. Chove chuva choveirando ― quem escreveu esta bobagem? E cadê o verão? Gato comeu. Friozinho bom pra ficar no borralho. Ler, pensar na bezerra que morreu. Ou reler o que nunca li. Estou me lixando para o que vai pelo mundo. Pelo Brasil, então! Não houvesse favela nem morro, e essa chuvinha podia invernar dias e dias. Chegou com a intimidade de quem veio pra ficar. Seja bem-vinda na doce e inquieta paz a que me recolho, entre livros e lembranças. Até que volte a zorra do verão, sua extroversão. Climazinho maluco, o deste alegre trópico.

otto-lara-resende
x
- +