Publicada em Bom dia para nascer: crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. Seleção e posfácio de Humberto Werneck. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p. 254.
Quando escrevi outro dia sobre a morte de Pompeu de Souza, lembrei uma espécie de saudação que ele empregava a três por dois: “Monstro de escuridão e rutilância”.Não disse, porque não calhou, que se trata de um verso do soneto “Psicologia de um vencido”, de Augusto dos Anjos. É o soneto que começa com o decassílabo “Eu, filho do carbono e do amoníaco” e abre o segundo quarteto com o famoso verso “Profundissimamente hipocondríaco”.
A beleza do soneto em boa parte vem de sua estranheza vocabular, ou seja, da busca propositada da palavra difícil e em princípio nada poética. Este recurso deu ao poeta, alheio ao modernismo, uma nota de singular modernidade. Talvez seja o caso de dizer que Augusto dos Anjos também refletiu com fidelidade uma inclinação pessimista que há na alma brasileira. E refletiu-a com o gosto igualmente brasileiro de complicar a expressão, com manifesta preferência pelas palavras difíceis e raras.
O poeta situou-se no polo oposto ao romantismo que tudo idealiza, a começar pelo índio, que só no indianismo de Gonçalves Dias e de José de Alencar teve o lugar de honra que merece, ou que lhe devemos. A realidade passa muito abaixo desse alto astral poético, feito de nobres e heroicos sentimentos. O indianismo de hoje, do dia a dia, tende muito mais para o realismo, o que implica ingressar no reino do mais deslavado pessimismo. O pior é que há razões para isto.
Mas voltando a Augusto dos Anjos. Todo brasileiro, filho de carbono e do amoníaco, sofre, desde a epigênese da infância, a influência má dos signos do zodíaco. Com licença para quebrar os versos do poeta, pode-se dizer que é raro o brasileiro que, profundissimamente hipocondríaco, não sinta hoje vontade de recitar: “Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia que se escapa da boca de um cardíaco”.
Numa hora em que tanto se fala de marketing político, e não só se fala como se pratica, seria oportuno buscar o antídoto para a síndrome de Augusto dos Anjos – a cava depressão do brasileiro. Onde está, porém, esse antídoto? Na F1? Na Fórmula Indy? Na “Escolinha do Professor Raimundo”? No “Carrossel”? No cara a cara do Lula com a Gabi? No Brasil oficial é que não está. Porque este está é de lascar.