Quando vi no termômetro aqui do Jockey que estava 38º à sombra, palavra que achei que era para me humilhar. A gente se conforma em ser um país tropical, o que nos garante a soberana posse da maior rain forest do mundo. Se é preciso pagar o preço de não ter, nítidas, modulando o ano, as quatro estações, está bem. É o preço, paga-se. Nem por isto vamos deixar de amar a nossa terra, este país quente também de alma e coração.
Mas 38º à sombra em pleno mês de junho, isto, não. Isto parece coisa feita. No momento em que no Rio se reúnem as pessoas mais importantes do mundo, na maior conferência de cúpula jamais realizada neste planeta, tamanho e tal calor só pode ser uma humilhação. E de encomenda. Afinal, maio é aqui, como no Hemisfério Norte, o suave mês das flores, das noivas e do manto azul do céu. Desde abril, despede-se de nós a fornalha do verão, para que possamos trabalhar e dormir em paz.
Este ano o calorão ignorou o calendário e entrou pelo mês de abril a todo vapor. Vapor de água fervente, ou de escaldante suor. Entrou junho e nada do verão nos dar as costas. Se não fosse a certeza do calendário, qualquer um de nós jura que estamos em dezembro. Ou num daqueles janeiros cuja grosseria se manifesta por meio de aguaceiros que não excluem a caldeira abafada do mormaço. Onde está o junho das festas de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo?
Não há festa junina que suporte o calor que vem fazendo à noite. O frio só podia se retirar. Mas para o Sul é que civilizadamente não foi. Por lá também a meteorologia enlouqueceu. Inundações, enchentes, temporais. E ainda por cima a ventania diabólica da tal microexplosão, como um ciclone, ou tornado. Verdadeiro tufão, passa um minuto pela cidade e a deixa em ruínas. Logo agora, quando precisamos de fazer bonito para as visitas ilustres que vieram ver o nosso edênico jardim.
De repente, me bateu a iluminação. É isso mesmo. Nada de maio ameno e junho com friozinho acolhedor. Era preciso mostrar aos gringos, sobretudo aos ricaços, que já estamos pagando pelo estrago que eles têm feito na camada de ozônio. 38° à sombra é consequência do efeito estufa. Quem já viu outros junhos no Rio sabe de ciência e de prática feitas que nunca tivemos de sofrer nesta época o forno que este ano estamos sofrendo. Mas está explicado: é tudo para ilustrar com vivo realismo a Eco-92.