Numa dessas conversas na televisão madrugada adentro, ouvi um sujeito dizer que a pior poluição no mundo de hoje é moral. Reclamava contra a pouca atenção que a Eco-92 deu a esse aspecto essencial. Essencialíssimo, dizia no superlativo. À noite, tudo assume um ar grave. Ou gravíssimo. Sobretudo se se deita na sua cama essa indesejada das gentes, a insônia. A mim a poluição moral me furtou umas três horas de sono.

Trata-se de tema complexo. Aliás, complexíssimo, como também diria o José Dias. Chegou a passar pela minha cabeça a ideia de escrever a respeito. Depois li um pouco a Bíblia e desisti. Nossa pobre natureza humana sempre teve essa queda para o pior. E também o melhor, no que não há nenhuma espécie de contradição. Comecei a tomar umas notas que depois, à luz do dia, me pareceram meio disparatadas. Anotei, por exemplo, que as virtudes teologais são três.

Já os pecados capitais são sete. Até aritmeticamente o mal ganha do bem. Aliás, no plano físico também é assim. É muito mais fácil sujar do que limpar. A mais refinada festa, cheia de alegria, deixa um monte de lixo. Já a faxina, não digo que seja triste. Mas pesa e só se faz com sacrifício. No fundo, no fundo, todos somos poluidores. Sem o saber, como Monsieur Jourdain. E era também o caso do cidadão que no vídeo invectivava a poluição moral.

Como tanta gente que fala para o grande público, tinha a boca cheia de cacoetes e modismos. Comecei então a pensar na poluição da língua. Com o fardo tão pesado como já é o seu, não vou pedir à Eco-92 que promova a limpeza do nosso instrumento de comunicação. Até porque a língua oficial dos eco-maníacos é mais o inglês. No inglês também se cometem barbaridades. Nem o Bush escapa. Mas isto é lá com os americanos.

Aqui o que me dá nos nervos é essa mania de incorporar à fala o primeiro bestialógico que aparece. Colocar, por exemplo. Hoje ninguém diz, sugere ou opina, todo mundo coloca. O pronome “cujo” por sua vez sumiu do mapa. No seu lugar entrou “onde”. Um governador diz: “O programa onde o objetivo é”... Outro retruca: “Mas o governador não interviu”. Assim mesmo: “interviu”. E esse tal de a nível de? Outro dia um cara se saiu com esta: “A nível de estatura, tenho um metro e 70”. Como está na moda dizer, esse extrapolou. A nível de exagero, pelo menos.

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Numa dessas conversas na televisão madrugada adentro, ouvi um sujeito dizer que a pior poluição no mundo de hoje é moral. Reclamava contra a pouca atenção que a Eco-92 deu a esse aspecto essencial. Essencialíssimo, dizia no superlativo. À noite, tudo assume um ar grave. Ou gravíssimo. Sobretudo se se deita na sua cama essa indesejada das gentes, a insônia. A mim a poluição moral me furtou umas três horas de sono.

Trata-se de tema complexo. Aliás, complexíssimo, como também diria o José Dias. Chegou a passar pela minha cabeça a ideia de escrever a respeito. Depois li um pouco a Bíblia e desisti. Nossa pobre natureza humana sempre teve essa queda para o pior. E também o melhor, no que não há nenhuma espécie de contradição. Comecei a tomar umas notas que depois, à luz do dia, me pareceram meio disparatadas. Anotei, por exemplo, que as virtudes teologais são três.

Já os pecados capitais são sete. Até aritmeticamente o mal ganha do bem. Aliás, no plano físico também é assim. É muito mais fácil sujar do que limpar. A mais refinada festa, cheia de alegria, deixa um monte de lixo. Já a faxina, não digo que seja triste. Mas pesa e só se faz com sacrifício. No fundo, no fundo, todos somos poluidores. Sem o saber, como Monsieur Jourdain. E era também o caso do cidadão que no vídeo invectivava a poluição moral.

Como tanta gente que fala para o grande público, tinha a boca cheia de cacoetes e modismos. Comecei então a pensar na poluição da língua. Com o fardo tão pesado como já é o seu, não vou pedir à Eco-92 que promova a limpeza do nosso instrumento de comunicação. Até porque a língua oficial dos eco-maníacos é mais o inglês. No inglês também se cometem barbaridades. Nem o Bush escapa. Mas isto é lá com os americanos.

Aqui o que me dá nos nervos é essa mania de incorporar à fala o primeiro bestialógico que aparece. Colocar, por exemplo. Hoje ninguém diz, sugere ou opina, todo mundo coloca. O pronome “cujo” por sua vez sumiu do mapa. No seu lugar entrou “onde”. Um governador diz: “O programa onde o objetivo é”... Outro retruca: “Mas o governador não interviu”. Assim mesmo: “interviu”. E esse tal de a nível de? Outro dia um cara se saiu com esta: “A nível de estatura, tenho um metro e 70”. Como está na moda dizer, esse extrapolou. A nível de exagero, pelo menos.

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Trata-se de tema complexo. Aliás, complexíssimo, como também diria o José Dias. Chegou a passar pela minha cabeça a ideia de escrever a respeito. Depois li um pouco a Bíblia e desisti. Nossa pobre natureza humana sempre teve essa queda para o pior. E também o melhor, no que não há nenhuma espécie de contradição. Comecei a tomar umas notas que depois, à luz do dia, me pareceram meio disparatadas. Anotei, por exemplo, que as virtudes teologais são três.

Já os pecados capitais são sete. Até aritmeticamente o mal ganha do bem. Aliás, no plano físico também é assim. É muito mais fácil sujar do que limpar. A mais refinada festa, cheia de alegria, deixa um monte de lixo. Já a faxina, não digo que seja triste. Mas pesa e só se faz com sacrifício. No fundo, no fundo, todos somos poluidores. Sem o saber, como Monsieur Jourdain. E era também o caso do cidadão que no vídeo invectivava a poluição moral.

Como tanta gente que fala para o grande público, tinha a boca cheia de cacoetes e modismos. Comecei então a pensar na poluição da língua. Com o fardo tão pesado como já é o seu, não vou pedir à Eco-92 que promova a limpeza do nosso instrumento de comunicação. Até porque a língua oficial dos eco-maníacos é mais o inglês. No inglês também se cometem barbaridades. Nem o Bush escapa. Mas isto é lá com os americanos.

Aqui o que me dá nos nervos é essa mania de incorporar à fala o primeiro bestialógico que aparece. Colocar, por exemplo. Hoje ninguém diz, sugere ou opina, todo mundo coloca. O pronome “cujo” por sua vez sumiu do mapa. No seu lugar entrou “onde”. Um governador diz: “O programa onde o objetivo é”... Outro retruca: “Mas o governador não interviu”. Assim mesmo: “interviu”. E esse tal de a nível de? Outro dia um cara se saiu com esta: “A nível de estatura, tenho um metro e 70”. Como está na moda dizer, esse extrapolou. A nível de exagero, pelo menos.

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Depois li um pouco a Bíblia e desisti. Nossa pobre natureza humana sempre teve essa queda para o pior. E também o melhor, no que não há nenhuma espécie de contradição. Comecei a tomar umas notas que depois, à luz do dia, irie pareceram meio disparatadas. Anotei, por exemplo, que as virtudes teologais são três. Já os pecados capitais são sete. Até aritmeticamente o mal ganha do bem. Aliás, no plano físico também é assim. E muito mais fácil sujar do que limpar. A mais refinada festa, cheia de alegria, deixa um monte de lixo. Já a faxina não digo que seja triste. Mas pesa e só se faz com sacrifício. No fundo, no fando, todos somos poluidores. Sem o saber, como Monsieur Jourdain. E era também o caso do cidadão que no vídeo invectivava a poluição moral. Como tanta gente que fala para o grande público, tinha a boca cheia de cacoetes e modismos. Comecei então a pensar na poluição da língua. Com o fardo tão pesado como já é o seu, não vou pedir à Eco-92 que promova a limpeza do nosso instrumento de comunicação. Até porque a língua oficial dos ecomaníacos é mais o inglês. No inglês também se cometem barbaridades. Nem o Bush escapa. Mas isto é lá com os americanos. Aqui o que me dá nos nervos é essa mania de incorporar à fala o primeiro* bestialógico que aparece. Colocar, por exemplo. Hoje ninguém diz, sugere ou opina. Todo mundo coloca. O pronome “cujo” por sua vez sumiu do mapa. No seu lugar entrou “onde”. Um governador diz: “O programa onde o objetivo é...” Outro retruca: “Mas o governador não interviu”. Assim mesmo: “interviu”. E esse tal de a nível de? Outro dia um cara se saiu com esta: “A nível de estatura, tenho um metro e 70”. Como está na moda dizer, esse extrapolou. 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