Periódico
Folha de S.Paulo

Publicada em Bom dia para nascer: crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. Seleção e posfácio de Humberto Werneck. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p. 112.

RIO DE JANEIRO Outro dia, era de noite, saí da Gávea, em plena zona sul do Rio de Janeiro, e de repente entrei em Londres. Ou numa São Paulo de antigamente que, presumo, não existe mais. A rua estava embrulhada num denso nevoeiro que mal me deixava entrever um palmo além do meu nariz. Curioso, fui indo com toda a cautela até o Leblon. Quanto mais eu andava, mais o nevoeiro se espessava. Os faróis do carro, inibidos, já não ajudavam a minha visão. Atrapalhavam.

Em Ipanema, na praia, cadê a ciclovia, as árvores, os novos quiosques, os postos salva-vidas, até a areia? Tudo tinha sido escamoteado como num passe de mágica. E eu ali de carro, a passo de cágado, pisando sobre ovos. Quando vinha um carro do outro lado, era uma sombra fantasmagórica que de perto tentava em vão arregalar os olhos leitosos e cegos. Os postes mais próximos dependuravam no alto a mesma bola difusa que um dia foi luz.

Quem não viu o que vi pode ter visto na televisão, pois foi notícia. Afinal não é toda hora que o Rio aparece assim encapotado em pleno verão. Quem gosta de explicação ficou sabendo que o fenômeno resulta da baixa temperatura das águas do mar em contraste com o calorão das ruas, mesmo à noite. O sol se recolhe, sim, para dormir. E deixa aqui embaixo, ardente, o seu hálito de fornalha. Mas o mar, quando lhe dá na veneta, não aceita essa tirania do sol.

Também está longe de se conformar com a atitude negligente com que o tratamos. O carioca é muito folgado com o mar. Soberbos, os surfistas já nem pedem licença para cavalgá-lo. As moças vão lá exibir a sua nudez. Maré baixa, ele fecha os olhos, pudico. Fogem do sol e do sal, mas do mar não fogem. Mergulham nele os seus olhos displicentes e oceânicos de distância. O que lhes interessa é o lazer da praia. A patota, a zorra, o namorico. Voltam para casa tendo visto o sorvete e o cachorro-quente. Mas o mar não viram.

Dois dias depois, acordei de um sonho angustiado no meio da noite e cheguei à varanda. De novo a cidade estava londrinamente encapotada como num filme policial. Não dava pra ver do outro lado da rua. Talassa!, gritei. O fog engoliu minha voz, sem eco. Meio talassofóbico, sei que a fúria do mar pode ser a bíblica manifestação da cólera divina. Gente, o mar não é um cãozinho doméstico que se põe no colo. Ninguém o tome por impotente. Ele está aí, vigilante, e adverte a cidade. Mais respeito, por favor. Foi o que li no nevoeiro.

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As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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