Festa de amador, do Carnaval dizia o Lúcio Rangel, carioca e boêmio, que entendia, como os que mais entendem, a alma do Rio e por inteiro a MPB. Alegria coletiva, com data marcada, tristeza solitária. Evolui, como uma escola de samba, mas não acaba o Carnaval. Todo ano, no entanto, há uma voz para dizer que acabou. Morreu, não mais o mesmo, diz o saudosista, quaresmal.

Pode ser, quem sabe, uma metáfora do Brasil. Como o Brasil, cheio de contrastes. Pobreza e riqueza, luxo e miséria. Desperdício, ostentação, gastos inúteis, lantejoulas e ouropéis. Asas à fantasia, alienação, busca das raízes. Confraternização de raças, de bicheiros e policiais, de autoridades e bandidos. O bloco da Comlurb, que trabalha o ano inteiro, e o bloco dos socialites. Impontualidade, pontualíssimos atrasos. Imprevidência — olha o fogo no carro alegórico!

Tudo é espetáculo. Narciso empurra o exibicionismo das vedetes de ocasião. Misturar-se ao povão para sobressair. Aparecer mais. Ser visto e televisto pela multidão dos que não desfilam. Muita roupa, uma tonelada de enfeites e adereços. Nenhuma roupa, ou roupa sumária. Basta a folha de parreira para dizer que a moça está seminua. “Semi” é metade. Na aritmética do folião, ou da foliona, semi é zero. A repórter americana jura que o carioca tende para a nudez. Cega, a Riotur protesta.

Ninguém esquece que os donos da terra viviam nus, vergonhas à mostra. Por uma noite ou duas, a tentação de passar por índio se impõe, no calor do verão. Pode chover que não faz mal. Refresca. Há muitos anos eu não passava o Carnaval no Rio. O feriado faz bem à cidade, enfim calma, sedativa. Sem gente demais, sem carros demais. Gostei da homenagem da Mangueira ao Tom Jobim. Mas faltou o urubu. Estava na hora de exaltar o urubu, a nossa águia de luto.

Por falar em luto, uma tristeza o nu frontal e afrontoso de gente do poder. Nudez explícita de um governo que começou com um abre-alas tão arrogante. Bandalheira de alto nível, é tudo uma baixaria só. “Não é miserável a república onde há delitos, senão onde falta o castigo deles” — prega o padre Antônio Vieira há três séculos. Brasileiro de Lisboa, colecionador de assombros, supersticioso e perseguido, Vieira é autor do “Sermão do Carnaval”. Já se vê que entende de Brasil. E de seus eternos enredos.

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