A esta altura do ano, o dia ainda está frio. Vou dar uma volta para desenferrujar as pernas. Na farmácia, vejo que os preços voam alto. Aumento de 100% num frasquinho de nada. O balconista sorri. É isso aí. Nem dá mais vontade de comentar.

O controle de preços, se existe, deve estar sendo feito pelo Ministério da Aeronáutica, em convênio com a NASA. Estico a caminhada até a banca de jornais mais bem fornida.

Com tanta leitura atrasada, me encho de revistas. Vamos ver o que dizem os Estados Unidos, a França, a Inglaterra. Deve ser tudo mais ou menos a mesma coisa. Até as capas se repetem, ao dar notícia do que vai pela URSS, quatro letras que em 1934 eram título de um poema de Murilo Mendes: “Volta para a comunidade dos filhos de Deus, ó pródiga, ó generosa. E verás a dança múltipla dos irmãos que te aclamam, ó irmã transviada”.

Pouco movimento na rua. Comércio fechado. Sábado de manhã, 7 de setembro. Só agora me dou conta de que é feriado. De pé tomo um chope em homenagem ao Hélio Pellegrino. No bar Joia não vejo o Tarso de Castro. Esse pessoal anda muito relapso. Quando dou por mim, infleti (como diria o Emílio Moura) à direita, na rua J. J. Seabra. Segunda-feira vão inaugurar o Quadrifoglio Caffé. Do Baixo Lagoa pra cá, o pedaço está se tornando o quartier des restaurants. O fino.

Entre o hospital do INPS e a igreja de São José, vou indo, distraído. Ninguém nesta quadra. Epa, lá vêm dois tipos estranhos. Estão se aproximando. Altos, um de busto nu. Cabelos, roupa, jeito, parecem que saltaram de um videoclipe. Já não dá pra mudar de rumo. Muito menos de calçada. Um deles tem uma faca na mão. Uma faca só lâmina. Cinco, quatro, três metros. Está cortando uma ripa. Ou afiando a faca. Uma peixeira.

Entrei num conto do Borges e o jeito agora é sair. Dois bandidos, nenhuma dúvida. Fundos da igreja de São José. Mais um passo, a Hípica. Vozes, gente, cavalos. Ai meu Deus, São José está de costas. Assaltantes? Pararam. Bem diante de mim. São José, valei-me. O de busto nu me dirige a palavra. Estou mais frito do que um ministro do Collor. Ah, sim. A rua J. J. Seabra? Essa aí, aponto. Seguem adiante. O meu pulso está um pouco acelerado. Tentação de olhar para trás: lá se vão os dois meliantes. Cidade cordial, o Rio. Assusta, mas não mata.

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A esta altura do ano, o dia ainda está frio. Vou dar uma volta para desenferrujar as pernas. Na farmácia, vejo que os preços voam alto. Aumento de 100% num frasquinho de nada. O balconista sorri. É isso aí. Nem dá mais vontade de comentar.

O controle de preços, se existe, deve estar sendo feito pelo Ministério da Aeronáutica, em convênio com a NASA. Estico a caminhada até a banca de jornais mais bem fornida.

Com tanta leitura atrasada, me encho de revistas. Vamos ver o que dizem os Estados Unidos, a França, a Inglaterra. Deve ser tudo mais ou menos a mesma coisa. Até as capas se repetem, ao dar notícia do que vai pela URSS, quatro letras que em 1934 eram título de um poema de Murilo Mendes: “Volta para a comunidade dos filhos de Deus, ó pródiga, ó generosa. E verás a dança múltipla dos irmãos que te aclamam, ó irmã transviada”.

Pouco movimento na rua. Comércio fechado. Sábado de manhã, 7 de setembro. Só agora me dou conta de que é feriado. De pé tomo um chope em homenagem ao Hélio Pellegrino. No bar Joia não vejo o Tarso de Castro. Esse pessoal anda muito relapso. Quando dou por mim, infleti (como diria o Emílio Moura) à direita, na rua J. J. Seabra. Segunda-feira vão inaugurar o Quadrifoglio Caffé. Do Baixo Lagoa pra cá, o pedaço está se tornando o quartier des restaurants. O fino.

Entre o hospital do INPS e a igreja de São José, vou indo, distraído. Ninguém nesta quadra. Epa, lá vêm dois tipos estranhos. Estão se aproximando. Altos, um de busto nu. Cabelos, roupa, jeito, parecem que saltaram de um videoclipe. Já não dá pra mudar de rumo. Muito menos de calçada. Um deles tem uma faca na mão. Uma faca só lâmina. Cinco, quatro, três metros. Está cortando uma ripa. Ou afiando a faca. Uma peixeira.

Entrei num conto do Borges e o jeito agora é sair. Dois bandidos, nenhuma dúvida. Fundos da igreja de São José. Mais um passo, a Hípica. Vozes, gente, cavalos. Ai meu Deus, São José está de costas. Assaltantes? Pararam. Bem diante de mim. São José, valei-me. O de busto nu me dirige a palavra. Estou mais frito do que um ministro do Collor. Ah, sim. A rua J. J. Seabra? Essa aí, aponto. Seguem adiante. O meu pulso está um pouco acelerado. Tentação de olhar para trás: lá se vão os dois meliantes. Cidade cordial, o Rio. Assusta, mas não mata.

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O controle de preços, se existe, deve estar sendo feito pelo Ministério da Aeronáutica, em convênio com a NASA. Estico a caminhada até a banca de jornais mais bem fornida.

Com tanta leitura atrasada, me encho de revistas. Vamos ver o que dizem os Estados Unidos, a França, a Inglaterra. Deve ser tudo mais ou menos a mesma coisa. Até as capas se repetem, ao dar notícia do que vai pela URSS, quatro letras que em 1934 eram título de um poema de Murilo Mendes: “Volta para a comunidade dos filhos de Deus, ó pródiga, ó generosa. E verás a dança múltipla dos irmãos que te aclamam, ó irmã transviada”.

Pouco movimento na rua. Comércio fechado. Sábado de manhã, 7 de setembro. Só agora me dou conta de que é feriado. De pé tomo um chope em homenagem ao Hélio Pellegrino. No bar Joia não vejo o Tarso de Castro. Esse pessoal anda muito relapso. Quando dou por mim, infleti (como diria o Emílio Moura) à direita, na rua J. J. Seabra. Segunda-feira vão inaugurar o Quadrifoglio Caffé. Do Baixo Lagoa pra cá, o pedaço está se tornando o quartier des restaurants. O fino.

Entre o hospital do INPS e a igreja de São José, vou indo, distraído. Ninguém nesta quadra. Epa, lá vêm dois tipos estranhos. Estão se aproximando. Altos, um de busto nu. Cabelos, roupa, jeito, parecem que saltaram de um videoclipe. Já não dá pra mudar de rumo. Muito menos de calçada. Um deles tem uma faca na mão. Uma faca só lâmina. Cinco, quatro, três metros. Está cortando uma ripa. Ou afiando a faca. Uma peixeira.

Entrei num conto do Borges e o jeito agora é sair. Dois bandidos, nenhuma dúvida. Fundos da igreja de São José. Mais um passo, a Hípica. Vozes, gente, cavalos. Ai meu Deus, São José está de costas. Assaltantes? Pararam. Bem diante de mim. São José, valei-me. O de busto nu me dirige a palavra. Estou mais frito do que um ministro do Collor. Ah, sim. A rua J. J. Seabra? Essa aí, aponto. Seguem adiante. O meu pulso está um pouco acelerado. Tentação de olhar para trás: lá se vão os dois meliantes. Cidade cordial, o Rio. Assusta, mas não mata.

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Até as capas se repetem, ao dar notícia do que vai pela URSS, quatro letras que em 1934 eram título de um poema de Murilo Mendes: “Volta para a comunidade dos filhos de Deus, ó pródiga, ó generosa. E verás a dança múltipla dos irmãos que te aclamam, ó irmã transviada ’ Pouco movimento na rua. Comércio fechado. Sábado de manhã, 7 de setembro. Só agora me dou conta de que é feriado. De pé tomo um chope em homenagem ao Hélio Pellegrino. No bar Jóia não vejo o Tarso de Castro. Esse pessoal anda muito relapso. Quando dou por mim, in fleti (como diría o Emílio Moura) à direita, na rua J. J. Seabra. Segunda-feira vão inaugurar o Quadrifoglio Caffé. Do Baixo Lagoa pra cá, o pedaço está se tornando o ‘ ‘qúartier des restaurants’ ’. O fino. Entre o hospital do INPS e a igreja de São José, vou indo, distraído. Ninguém nesta quadra. Epa, lá vêm dois tipos estranhos. Estão se aproximando. Altos, um de busto nu. Cabelos, roupa, jeito, parecem que saltaram de um videoclip. Já não dá pra mudar de rumo. Muito menos de calçada. Um deles tem uma faca na mão. Uma faca só lâmina. Cinco, quatro, três metros. Está cortando uma ripa. Ou afiando a faca. Uma peixeira. Entrei num conto do Borges e o jeito agora é sair. Dois bandidos, nenhuma dúvida. Fundos da igreja de São José. Mais um passo, a Hípica. Vozes, gente, cavalos. Ai meu Deus, São José está de costas. Assaltantes? Pararam. Bem diante de mim. São José, valei-me. O de busto nu me dirige a palavra. Estou mais frito do que um ministro do Collor. Ah, sim. A rua J. J. Seabra? Essa aí, aponto. Seguem adiante. O meu pulso está um pouco acelerado. Tentação de olhar para trás: lá se vão os dois meliantes. Cidade cordial, o Rio. 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