Coincidência é o que não falta neste mundo. Eu estava aqui em casa procurando aquela edição fac-similar da revista Klaxon, quando me entra qual pé de vento o meu hermeneuta. Para tudo que acontece ele tem uma explicação. Sua interpretose mal lhe deixa tempo pra respirar. Da minha parte, queria era lastimar aqui, e ora lastimo, minha involuntária ausência ontem no “Encontro de Escritores, 92”, aperitivo para o centenário de Mário de Andrade no ano que vem.

Não sei quantos somos hoje os que tivemos o privilégio de conhecer o Mário em pessoa. Sei que estou entre os que podem se gabar dessa fortuna. Dá até um certo desconforto, como se, mais que veteranos, fôssemos uma espécie de sobreviventes. Não terá sido outra a razão por que Miguel de Almeida me convidou pra ir ao tal “Encontro” aí em São Paulo. Uma pena que não tivesse podido ir. Perdi eu, que deixei de ver gente que gostaria de ver ― e todos nós voltados para a mariolatria, ou mariologia.

Logo nessa hora, eu às voltas com o “K” de Klaxon a revista de 1922, me aparece o importuno hermeneuta, por sua vez às voltas com outro “K”. Acredite se quiser, eu lia uma crônica que saiu no domingo, 8 de dezembro de 1929. Sim, do Mário. É sobre ortografia. Há anos e anos costumo dizer que no Brasil só há uma reforma que nos empolga ― a ortográfica. Aliás, já se fez mais de uma. E outras se farão. Quanto mais acadêmica e perfunctória, mais se impõe.

Pouco importa escrever “cavalo”, “Kavhallo” ou “KKK-cahwa-hlo”, dizia o Mário. O importante é ter uma ortografia, o importante é adquirir o direito de errar. E vai por aí afora: não existe ortografia mais boba que a inglesa. Mas é uma ortografia. Num certo sentido, não deixa de haver afinidade entre este mote e a preocupação hermenêutica do meu visitante. Só que ele estava mergulhado na notícia do dia, que eu, alienado, ignorava ― a demissão do ministro Krause.

Uma pena que eu não possa expor aqui a torrencial explicação que me deu para a queda do Krause. Tudo, culpa do “K”. Não há força que consiga entre nós cassar o velho kappa grego, diz ele. Sendo uma abreviatura, trata-se também de um estranho em nosso ninho. Integra o nosso karma. País kafkiano, o Brasil vive neste momento a mais profunda crise da história republicana. Disse-o o próprio Krause, em sua carta de demissão. Kaos, Krase, Krise, aí está ainda o Collor. Cujo avô se escrevia Kollor.

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Coincidência é o que não falta neste mundo. Eu estava aqui em casa procurando aquela edição fac-similar da revista Klaxon, quando me entra qual pé de vento o meu hermeneuta. Para tudo que acontece ele tem uma explicação. Sua interpretose mal lhe deixa tempo pra respirar. Da minha parte, queria era lastimar aqui, e ora lastimo, minha involuntária ausência ontem no “Encontro de Escritores, 92”, aperitivo para o centenário de Mário de Andrade no ano que vem.

Não sei quantos somos hoje os que tivemos o privilégio de conhecer o Mário em pessoa. Sei que estou entre os que podem se gabar dessa fortuna. Dá até um certo desconforto, como se, mais que veteranos, fôssemos uma espécie de sobreviventes. Não terá sido outra a razão por que Miguel de Almeida me convidou pra ir ao tal “Encontro” aí em São Paulo. Uma pena que não tivesse podido ir. Perdi eu, que deixei de ver gente que gostaria de ver ― e todos nós voltados para a mariolatria, ou mariologia.

Logo nessa hora, eu às voltas com o “K” de Klaxon a revista de 1922, me aparece o importuno hermeneuta, por sua vez às voltas com outro “K”. Acredite se quiser, eu lia uma crônica que saiu no domingo, 8 de dezembro de 1929. Sim, do Mário. É sobre ortografia. Há anos e anos costumo dizer que no Brasil só há uma reforma que nos empolga ― a ortográfica. Aliás, já se fez mais de uma. E outras se farão. Quanto mais acadêmica e perfunctória, mais se impõe.

Pouco importa escrever “cavalo”, “Kavhallo” ou “KKK-cahwa-hlo”, dizia o Mário. O importante é ter uma ortografia, o importante é adquirir o direito de errar. E vai por aí afora: não existe ortografia mais boba que a inglesa. Mas é uma ortografia. Num certo sentido, não deixa de haver afinidade entre este mote e a preocupação hermenêutica do meu visitante. Só que ele estava mergulhado na notícia do dia, que eu, alienado, ignorava ― a demissão do ministro Krause.

Uma pena que eu não possa expor aqui a torrencial explicação que me deu para a queda do Krause. Tudo, culpa do “K”. Não há força que consiga entre nós cassar o velho kappa grego, diz ele. Sendo uma abreviatura, trata-se também de um estranho em nosso ninho. Integra o nosso karma. País kafkiano, o Brasil vive neste momento a mais profunda crise da história republicana. Disse-o o próprio Krause, em sua carta de demissão. Kaos, Krase, Krise, aí está ainda o Collor. Cujo avô se escrevia Kollor.

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Não sei quantos somos hoje os que tivemos o privilégio de conhecer o Mário em pessoa. Sei que estou entre os que podem se gabar dessa fortuna. Dá até um certo desconforto, como se, mais que veteranos, fôssemos uma espécie de sobreviventes. Não terá sido outra a razão por que Miguel de Almeida me convidou pra ir ao tal “Encontro” aí em São Paulo. Uma pena que não tivesse podido ir. Perdi eu, que deixei de ver gente que gostaria de ver ― e todos nós voltados para a mariolatria, ou mariologia.

Logo nessa hora, eu às voltas com o “K” de Klaxon a revista de 1922, me aparece o importuno hermeneuta, por sua vez às voltas com outro “K”. Acredite se quiser, eu lia uma crônica que saiu no domingo, 8 de dezembro de 1929. Sim, do Mário. É sobre ortografia. Há anos e anos costumo dizer que no Brasil só há uma reforma que nos empolga ― a ortográfica. Aliás, já se fez mais de uma. E outras se farão. Quanto mais acadêmica e perfunctória, mais se impõe.

Pouco importa escrever “cavalo”, “Kavhallo” ou “KKK-cahwa-hlo”, dizia o Mário. O importante é ter uma ortografia, o importante é adquirir o direito de errar. E vai por aí afora: não existe ortografia mais boba que a inglesa. Mas é uma ortografia. Num certo sentido, não deixa de haver afinidade entre este mote e a preocupação hermenêutica do meu visitante. Só que ele estava mergulhado na notícia do dia, que eu, alienado, ignorava ― a demissão do ministro Krause.

Uma pena que eu não possa expor aqui a torrencial explicação que me deu para a queda do Krause. Tudo, culpa do “K”. Não há força que consiga entre nós cassar o velho kappa grego, diz ele. Sendo uma abreviatura, trata-se também de um estranho em nosso ninho. Integra o nosso karma. País kafkiano, o Brasil vive neste momento a mais profunda crise da história republicana. Disse-o o próprio Krause, em sua carta de demissão. Kaos, Krase, Krise, aí está ainda o Collor. Cujo avô se escrevia Kollor.

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Dá até um certo desconforto, como se, mais que veteranos, fôssemos uma espécie de sobreviventes. Não terá sido outra a razão por que Miguel de Almeida me convidou pra ir ao tal “Encontro’’ aí em São Paulo. Uma pena que não tivesse podido ir. Perdi eu, que deixei de ver gente que gostaria de ver —e todos nós voltados para a mariolatria, ou mariologia. Logo nessa hora, eu às voltas com o “K” de “Klaxon” a revista de 1922, me aparece o importuno hermeneuta, por sua vez às voltas com outro “K”. Acredite se quiser, eu lia uma crônica que saiu no domingo, 8 de dezembro de 1929. Sim, do Mário. E sobre ortografia. Há anos e anos costumo dizer quê no Brasil só há uma reforma que nos empolga —a ortográfica. Aliás, já se fez mais de uma. E outras se farão. Quanto mais acadêmica e perfunctória, mais se impõe. Pouco importa escrever “cavalo”, “KavhaUo” ou “KKK-cahwa-hlo”, dizia o Mário. O importante é ter uma ortografia, o importante é adquirir o direito de errar. E vai por aí afora: não existe ortografia mais boba que a inglesa. Mas é uma ortografia. Num certo sentido, não deixa de haver afinidade entre este mote e a preocupação hermenêutica do meu visitante. Só que ele estava mergulhado na notícia do dia, que eu, alienado, ignorava —a demissão do ministro Krause. Uma pena que eu não possa expor aqui a torrencial explicação que me deu para a queda do Krause. Tildo, culpa do “K”. Não há força que consiga entre nós cassar o velho kapa grego, diz ele. Sendo uma abreviatura, trata-se também de um estranho em nosso ninho. Integra o nosso karma. País kafkiano, o Brasil vive neste momento a mais profunda crise da história republicana. Disse-o o próprio Krause, em sua carta de demissão. Kaos, Krase, Krise, aí está ainda o Collor. Cujo avô se escrevia Kollor. 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