RIO DE JANEIRO – Aí está: o verão acendeu o seu forno crematório bem em cima do Rio de Janeiro. Ou embaixo, sei lá. O que sei é que todos os carvões extintos estão de novo acesos, como labaredas de maçarico. Com a língua de fora, a cidade exibe um ar de peru na véspera do Natal. Aflito, querendo se livrar das penas. O Rio, este, se livra das roupas. Até São Sebastião, o padroeiro, está nu, encostado no poste do martírio.

Mas os pagãos se divertem. Na boa escola indígena, buscam as águas e lá permanecem, com esticadas de jacaré na areia que escalda na sola dos pés. Promovidas a gatinhas, as cunhãs estão queimadas, com aquele dourado que vem encantando os poetas desde que em público apareceu o primeiro tornozelo. Daí, foi vapt-vupt, a roupa foi parar no sótão de um tempo remoto. Voltou a tanga, com as vergonhas expostas sem sombra de vergonha. Até porque na praia não existe sombra.

Podem ter tirado a capital federal do Rio. Dizem aliás que com as melhores intenções. Foi só mudar o Tesouro e os pensionistas foram atrás. O Lucio Costa riscou no quadrilátero Cruls a cruz que veio com as caravelas. Gênio é isto: retomou o símbolo sem desfigurá-lo. O sinal mais simples que traça a mão humana sugere agora um avião. Juntos, o velho e o novo, para sempre. Nova et Vetera.

Pela mão de harmonias do Oscar Niemeyer, lá pousou aquele mundo de formas novas. Curvas e retas, amigas, não agridem a natureza. Mal disfarçam na paisagem o ímpeto de voo. Há nelas uma saudade do céu, do azul, de uma clara e livre civilização. A Grécia, como a sonhamos. O Brasil, como pedimos. O leite e o mel do sonho de Dom Bosco. A clarté dos bulevares de Haussmann. No Planalto o horizonte começa e não acaba. A bacia infinita do céu reflete a utopia e o gênio do Oscar.

Traçada para ser feliz, concepção mais que secular, Brasília bem que podia ser a Cidade do Sol de Campanella. Mas o Brasil velho também foi atrás: burocratas, mandatários, mandões e marginais de todo gênero. Indiferente às nuvens negras, Brasília celebra o seu permanente Quarup. Atenção, ONU: aqui somos todos índios, a caminho da modernidade. Mas verão, verão mesmo, fornalha de cálidas alegrias, isto não tem conversa: é no Rio. Podem pichar à vontade. No alto do Corcovado, o Cristo lá uma hora boceja de tédio. Mas sempre de braços abertos, Cruz que a todos acolhe: Na sombra. Ou ao sol.

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