Periódico
Manchete, nº 532
Publicada também em: livro Homenzinho na ventania, de 1962; Minas Gerais, Suplemento Literário, de 28 de agosto de 1971; e Jornal do Brasil, Caderno Ideias, de 15 de abril de 1990.

No hotel da pequena cidade, enquanto eles se amavam, a tarde se estampou de vez sobre ruas e colinas; era uma tarde útil, quase antológica; na casa de saúde da encosta um enfermo se lembrou das vibrações de um domingo de cristal; uma andorinha pousou no fio: dó; mais uma andorinha: ré; uma terceira andorinha: mi; sol-lá-si ficaram dançando na piscina do oxigênio do coro da igreja, onde o frade franciscano ensaiava um novíssimo Tantum ergo; as vacas ficaram imóveis, construídas de argila; entre as franças da figueira, o menino via a vila distante, e o fruto da figueira de repente ficou doce; o chefe da estação olhou a sineta sobre a plataforma varrida e, neste exato momento, ouviu uma pancada clara, indiscutível (mas sempre se pode pensar que foi o vento); na cadeia sem sol, o criminoso de morte acabava de esculpir a canivete um doloroso Cristo de pinho; o contabilista da fábrica enramava longas operações, sonegando imposto de renda; a lavadeira grávida depositou a trouxa sobre a pedra lisa e umedeceu a boca na fonte; sobre o pontilhão passava o trem, levando passageiros e porcos; dentro do trem tinha um bispo, dentro do bispo voavam borboletas, dentro das borboletas tinha uma corda (que move o mundo); o prefeito municipal redigia a capricho um telegrama de congratulações ao excelentíssimo senhor governador do estado; o filho do promotor fez um gol com uma laranja seca; o farmacêutico concedeu sem resignação que seria muito difícil conhecer a Bavária, de onde emigrara seu avô; mas a farmácia ganhava depressa um frescor quase insuportável; a preta Mariana comprou sapatos brancos na loja; Hans Oliveira Bagenhoff, na classe, começou a ler sincopado: "Ora, entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado na prega dum cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel"; um Ford de bigode esperava, bufando, o burro passar, o burro esperava passar, lentamente, um pensamento cheio de capim; o padre secular, vigário de cima, abriu os braços com espanto e acreditou em Deus; o riozinho repetia de cor a lição de Heráclito; um pássaro preto, sobre o mourão da cerca, não conseguia assustar o verde pasto; a pedra do bodoque de Bicudo esborrachou o tiziu; uma aurora escura bailava nos cabelos da menina-moça mais sensível da cidade (e ninguém sabia); a mulher do carpinteiro sorriu para o marido da mulher do sapateiro; os legumes cresciam bonitos em todas as hortas, sem exceção, pois só os de origem teutônica plantavam no município; o médico lavou as mãos na bacia esmaltada; o velho neurastênico da cidade, antigo professor no Rio, chorou à janela, quando viu o carroceiro passar cantando; o sargento se reconheceu no cão sarnento e lhe deu um violento pontapé; a praça era clara como um pensamento claro e lenta como a lentidão; ninguém se dava conta: do pólen, das raízes, das germinações para o bem e o pior; havia cortinados limpos, ladrilhos lavados, pão fresco no forno e tédio (todas as paróquias, dizia o francês, são devoradas pelo tédio); um urubu pousou no cimo do telhado do hotel, onde ela e ele se amavam (inútil: o amor é eterno); eles se amavam, isto é, se reduziam e ampliavam, exercitavam-se, aprendiam-se, compunham-se, desvirtuavam-se, confundiam-se, inauguravam-se, comemoravam-se, desabriam-se, sobre-excediam-se, transpunham-se, inventavam-se, pressupunham-se, imparcializavam-se, acolhiam-se, desviviam-se, pastavam-se, intercediam-se, subentendiam-se, verdeciam-se, desentristeciam-se, revertiam-se, entreconheciam-se, corrigiam-se, afluíam-se, definiam-se, consentiam-se, compungiam-se, ingeriam-se, traduziam-se, reagradeciam-se, surpreendiam-se, engrandeciam-se, resolviam-se, socorriam-se, riam-se, mordiam-se, dissolviam-se, imortalizavam-se, encapelavam-se, responsabilizavam-se, inflacionavam-se, transfiguravam-se, recuperavam-se, participavam-se, esperançavam-se, frutificavam-se, irradiavam-se, entrechocavam-se, incorporavam-se, escravizavam-se, libertavam-se, animalangelizavam-se — pois o amor, visivelmente, é cego.

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