Periódico
Manchete, nº 749
Publicada também em: livro O anjo bêbado, de 1969.

A minha insônia é um vasto mural no tempo, composto de quadros díspares e desordenados, cuja unidade em todo o cosmos é um fiozinho mínimo e invisível dentro da Noite: eu. Quando esse eu desaparecer, os quadros terão desaparecido para sempre do Universo, e isso não será um acontecimento positivo ou negativo; porque não terá a menor importância: vejo a fotografia que tirei com minha mãe ao pé do muro do cemitério do Bonfim; minha roupa de veludo horrendamente roxa; a madrugada de garoa em Barbacena, quando saímos correndo de frio; a mala vermelha de Roberto no Grupo Escolar; uma beleza de mala; o cavalo botando a cabeça para dentro da janela do hotelzinho e os olhos faiscantes do cavaleiro, retornando para dizer que se sentira insuportavelmente sozinho depois da nossa visita: o cavaleiro era Georges Bernanos; os japoneses em Ircutsqui a tomar sopa com um ruído intolerável; Nossa Senhora Auxiliadora com seu manto azul, no centro do pátio; o nome Marmeladov quando eu era menino; as flores amarelas; o sol na bruma seca de setembro e Maria falando sobre uma música tristíssima de Albeniz; minha briga com o Vaquinha na entrada da capela; aquele menino doidinho que puxou a orelha do frade; o frade que fazia círculos concêntricos com a fumaça do charuto; o raio caindo com estrépito no pátio enlameado; o silvo do carro de boi quando padre Questor discorria sobre os Déspotas Esclarecidos; o pombo Branquinho retornando ao pombal com uma beleza que me desesperava, com o sentimento do efêmero e o alvoroço de uma tarde irreparável; a machadinha que eu perdi entre mamoeiros e achei de novo; o meu Polar 22; as flores amarelas; aquela noite em que o amigo Luís me emprestou as obras completas de Verlaine; o camundongo encontrado morto atrás do quadro; a bodocada no olho do gato; o cartão perfumado dentro do livro de Pascal; as meninas que atiravam beijos do adro da matriz; os olhos de Vivian Leigh na Ponte de Waterloo; a capa de Tarzã o filho da selva, de Jacala o crododilo, de Mowgli o menino lobo; Cifuentes lendo no refeitório a morte de Winnetou, e a gente pretendendo não chorar; a mulata gorda dançando ao amanhecer em um botequim sórdido na Praça da República; a noite de febre e delírio em que ajoelhei aos pés do meu avô, dizendo que eu devia todas as favas do mundo; as flores amarelas; o sol na bruma seca de setembro e Maria falando sobre uma música tristíssima de Albeniz; a noite em que dormi no chão e um exército de formigas passou sobre o meu corpo; o banco da Praça da Liberdade; o tuberculoso morrendo em Alvinópolis; Pedrinho Paulista (isso não vi, mas imagino) descendo do trem para morrer no jardim; o dia em que o circo – o primeiro – desfilou pelas ruas do arraial; padre Alcides atenazando meus mamilos até que me jorrassem lágrimas de ódio e dor; as flores amarelas; Frei Rufino dizendo a grande velocidade: "res, rei, rei, rem, res, re – latim é muito fácil"; quando o automóvel entrou na praça Paris e vi o mar; dois rapazes pretos cobertos de sangue se trucidando em um bar da rua Tupis; o italiano, que passava a tarde a fumar cachimbo, sentado na pedra que ficava debaixo de uma árvore espinhosa; o sol na bruma seca de setembro e Maria falando sobre uma música tristíssima de Albeniz; as flores amarelas; pestanas arqueadas sobre olhos verdes, azuis, castanhos e capas de chuva; e mãos trêmulas descalçando luvas; e a imagem de Gautier: "Glissant de l´épaule à la hanche,/ La chemise aux plis nonchalants,/ Comme une tourterelle blanche/ Vint s´abattre sur sés pieds blancs"; e o resto; e as flores amarelas; e as primeiras gravuras impressionistas: La gare Saint-Lazare, Un dimanche d´été à la grande jatte; os barcos apodrecendo no parque; o general de Garibaldi dentro do esquife no museu-cemitério de Palermo; e flores amarelas; e grandes bispos mortos alçados nas paredes; e flores amarelas; e o cadáver de uma criancinha morta no ano em que nasci; e o sol na bruma seca de setembro e Maria falando sobre uma música tristíssima de Alberniz; e a dama de ouros, o sete de copas, o quatro de paus, e assim por diante, indefinidamente, um fiozinho mínimo e invisível dentro da Noite; e flores amarelas batidas pelo vento, rolando pelo mundo.

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