Estava eu disposto a encerrar as longas transcrições que venho fazendo do livro Em defesa dos direitos da mulher, mas pessoas com quem me encontrei me fizeram ver a necessidade de continuar a citar trechos do referido e palpitante volume. Obedeço a esses pedidos.

Na revolução de 1924, a autora estava em Sergipe. Dirigiu-se ela ao quartel dos revolucionários, declarando ao comandante dos mesmos nada ter com a revolução, “pois era uma forasteira intelectual, de passagem na terra”. Dona Eulina continuou bravamente a fazer  comícios em defesa da mulher brasileira, sem se incomodar com os tiroteios. Vieram, no entanto, tropas legalistas e empastelaram barbaramente o Correio de Aracaju, onde a autora colaborava. Denunciada por um “Judas”, foi ela chamada a palácio, onde a recebeu o general Marçal de Farias, que lhe deu voz de prisão. Respondeu a autora: “Sr. General, tenha a bondade de dar-me um aposento bastante grande na prisão, pois tenho cinco filhos menores que me acompanham, estando ainda o mais novo a ser amamentado no peito”.

O general se compadeceu: “A pedido de s. excia., dr. Graco Cardoso, governador do estado, pôs-me em liberdade, sob a condição de eu emudecer a minha tira artística, isto é: não fazer propagandas feministas, não escrever em jornais, não publicar livros, pondo-me assim numa situação monetária difícil”.

Dona Eulina, “desesperada pela pobreza”, embarca para o interior, “sendo muito bem recebida pelas populações”. No entanto, o fado mau a persegue: “Quando estava no auge da florescência intelectual, sou novamente chamada à capital pelo sr. general Marçal de Farias, o qual, ao receber-me, disse-me na quintessência da cólera: “Senhora escritora, eu não lhe proibi de se manifestar ao público, de toda e qualquer maneira e agora vejo o seu nome esparramado em jornais, em todas as cidades do interior. Como é que a senhora explica isso?” Eu que já estava por conta de tudo que desse e viesse, pois nessa ocasião já não contava mais nem com a vida, respondi-lhe com energia (sic): “Sr. general, eu nada tenho que ver com a revolução. A minha revolução é santa, porque tem, como ideal, a emancipação da mulher brasileira. É uma revolução bendita, porque tem como espada o calor da palavra e o ardor da inteligência. O sr. não deve me perseguir, porque cada um se defende como pode. O sr. tem os seus altos bordados de general para lhe garantir o conforto de sua vida material. Eu, sem recursos materiais, tenho a minha inteligência. Sou, como o sr. sabe, escritora, jornalista, propagandista e oradora popular, portanto, não posso ficar parada sem trabalhar”.

O sr Graco Cardoso pediu em favor de dona Eulina. No dia seguinte, voltava “aos interiores, em os quais só recebi aplausos e proteção”.

À página 84, a autora está novamente na Bahia, onde foi “recebida pelos brilhantes colegas jornalistas, distinguindo-se entre eles o prof. Altamirando Requião e dr. Hermano do Diário de Notícias, dr. Julio do Imparcial, dr. Meio Áureo Contreiras, da Noite.”

Uma aventura dramática: “Na cidade de Veados, sertões da Bahia, fui, depois de uma propaganda feminista, agredida pelo sr. Flávio, coletor estadual, tendo de sair da mesma cidade, acompanhada por policiais embalados, para não ser morta. Na cidade de Amargosa, um advogado, vulgo “mão de onça” mandou seu filho dar dois tiros na autora.

Continua a peregrinação de dona Eulina: “Chegando à capital da Bahia, passei dois dias tomando rumo à cidade de Maragojipe, onde tem as grandes fábricas alemãs, fábricas de charutos Suerdieck”. Os dirigentes receberam-na “desatenciosos e grosseiramente”. A autora fez um comício aos operários da fábrica, “fazendo-os ver que estavam ali sob o domínio rude e implacável de estrangeiros”. Depois de várias peripécias, dona Eulina seguiu para Cachoeira, onde os alemães continuaram a persegui-la.

Aí, o dr. Elpídio Vaccarezza, médico operador e prefeito municipal da cidade, mandou uma escolta fechar o cinema em que dona Eulina deveria falar ao “público ansioso” de ouvi-la. Ela se juntou à grande massa popular e foi à praça pública pregar suas ideias: “Eu, com voz segura e pulmão de aço, protestei contra o gesto agressivo do dr. Elpídio Vaccarezza, que, eu disse à multidão:  “É ridículo até seu nome, escutem-no, vou descompô-lo: Elpídio, pidão, pedilhão, guloso, insatisfeito, Vaccarezza, vaca que reza, já viram senhores, perguntei irônica à multidão: Já viram a vaca rezar? E a massa popular ávida de sensações e de ideias novas, vaiou desesperadamente ao prefeito municipal, embora ausente”.

Um cabo procurou alvejar a oradora, salvando-a o juiz de direito. Ela seguiu para São Félix: “Ao passar nas águas do rio Paraguassú, um canoeiro, por ordem dos mandões, fez menções de virar a canoa para matar-me afogada. Eu, porém, que o previ logo, sacando de um F.M., disse-lhe: “Antes de me jogares ao fundo do rio eu te embarco para o outro mundo”. E assim sofri horrores em várias cidades.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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