O cineasta − Você gostou de Pacto sinistro?

Eu − Infelizmente, não.

O cineasta − Não ?! Mas é do melhor Hitchcock!

Eu (que não me lembro de nenhum outro filme de Hitchcock) − Mas eu logo vi!

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Há pelo menos duas cenas neste Pacto sinistro, que o mais afobado dos diretores nacionais se recusaria a assinar.

Uma, quando o criminoso deixa cair o isqueiro dentro de um ralo de esgoto: ele enfia a mão e o braço dentro da abertura do ralo, a câmera focaliza a mão avançando, lentamente, até que a ponta dos dedos do rapaz consegue alcançar o isqueiro, que cai então ainda mais abaixo; aí começa de novo o lento avanço do braço, lento, muito lento, até que o criminoso consegue finalmente empalmar o isqueiro. Ora, quem já tirou na infância uma moeda do fundo de um ralo (ou se lhe faltou essa experiência, quem dispuser de senso comum), sabe que quando a gente enfia o braço para dentro de uma abertura, o faz com um único movimento, até o ponto em que o diâmetro do braço é maior do que a da abertura; depois disso, comprimindo a carne, a pessoa pode avançar mais uns pouquíssimos centímetros. E é só.

Outra cena estapafúrdia é aquela do carrossel: o criminoso se firma com as duas mãos, enquanto gira o carrossel e começa a golpear com o pé os dedos do mocinho; quando o carrossel estaca subitamente e desmancha-se, o criminoso é atirado à distância onde cai imprensado entre o madeirame; morre o criminoso e quando abre lentamente as mãos, o que se vê nela? O isqueiro.

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Pacto sinistro sai nas primeiras cenas para um grande filme. Depois o diretor se enrasca na sua mania de “sutilezas”. Mas o filme ainda poderia melhorar muito se a essa altura entrassem em cena os irmãos Marx.

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Enfim, eu nada tenho com isso e, em matéria de cinema, sou, com raras exceções, apenas uma vítima. Mas, além de aborrecer-me duas horas com o sr. Hitchcock, discuti bobamente com amigos meus que acharam o filme uma obra-prima. Meu caro Vinicius de Moraes, por exemplo, achou que Mestre Hitchcock consegue com esse Pacto sinistro o que Mallarmé conseguiu com a poesia. Ora, Mallarmé, poeta! Isso é irmãos Goncourt na febre mais aguda da “écriture littéraire”.

Dito o que, encerra esse “Primeiro Plano” pedindo desculpas aos leitores e com um imenso tédio de ter me metido nesse assunto escabroso que é o cinema.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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