O caso é autêntico e se passou em um bairro da zona sul.

Uma senhora, abandonada pelo marido, muito sofria pela separação e se queixava e se desesperava e se esbaldava em lágrimas. Por fim, entrou naquela fase norte-americana do nervous breakdown, deixou de sair, deixou de se arrumar, deixou de comer, ela que antes era dada às festas, aos vestidos elegantes e, sobretudo, à arte e aos prazeres da culinária.

Naturalmente, as amigas compareceram com uma constante e carinhosa assistência. Debalde: essa Dido moderna fazia questão de permanecer implacável em sua mágoa de amor.

Passava os dias na casa das amigas, mas jogada a um divã soluçando, entrecortada às vezes de crises mais violentas de choro e de invectivas à sirigaita (sic) que roubou o seu marido.

Assim estava ela uma tarde em casa da melhor amiga, atirada a uma poltrona, os olhos vermelhos, os cabelos desfeitos, quando, subitamente, saiu em desabalada carreira, abriu a porta do apartamento, não esperou pelo elevador, gritando, gritando:

— Samanguaiá! Samanguaiá! Samanguaiá!

A amiga não teve dúvidas: a pobre se enlouquecera. Aquela correria inesperada e ilógica, aquela palavra misteriosa e sem sentido... E desceu também as escadas para impedir que a desesperada fosse se lançar dentro das ondas ou debaixo de um automóvel.

Na rua, encontrou a seguinte cena: um vendedor de qualquer coisa com um balaio, e a amiga, excitada, escolhendo qualquer coisa no balaio. Aproximou-se, sem entender: 

— Que isso, Fulana?

— Samanguaiá! Isso é uma delícia! Isso é raríssimo! Há anos que eu não fazia um bom prato de samanguaiá!

Foi o princípio da cura. Devemos acrescentar que samanguaiá é um molusco comestível.

*

O Figaro Littéraire conta a história de um senhor Rosenberg, de Tel Aviv, que, excessivamente prudente, só viajava depois de fazer vultosos seguros contra acidente. Nada lhe acontecia. Até que, recentemente, em um desastre de veículos, ficou paralítico, recebendo muito dinheiro.

Um primo foi visitá-lo. Rosenberg se levantou para recebê-lo.

— Que é isso? Então você não está paralítico ?

— Não, meu caro.

— Formidável! Já vi tudo! Mas... de qualquer forma, você será obrigado a passar o resto de sua vida na cama…

— Passar minha vida na cama, coisa nenhuma! — diz Rosenberg. E piscando o olho:

— Brevemente vou fazer uma peregrinação à Nossa Senhora de Lourdes.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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