Encontro no padre Manuel Bernardes uma piedosa consolação para os que bebem uísque falsificado nas boates, espetam as contas e não as pagam. Ei-la:
“Veio queixar-se ao Santo (S. Vicente Ferrer) um taverneiro de que muitos dos seus fregueses lhe levavam o vinho fiado, e não faziam caso de pagar-lhe, senão mal, e tarde; que falasse o Santo Padre no Púlpito sobre esta matéria, pois era de consciência. Disse-lhe o Santo:
– Trazei-me aqui o vinho que vendeis. Trouxe, e aparando o Santo o seu Escapulário, disse:
– Vazai aqui.
Detinha-se o homem, não sabendo o intuito daquela ação, e não querendo manchar o hábito do Santo. Mas ele lhe disse:
– Vazai, que assim convém ao vosso negócio.
Vazou, e o vinho se escoou abaixo, deixando em cima toda aquela parte de água, com que estava misturado. Olhando então o Santo para ele, que estava atônito, disse:
– Ó irmão, se vós sois o que furtais, como quereis, que sejam eles os que restituam?”
*
Quando morou na Suíça, a romancista Clarice Lispector, teve uma surpreendente empregada italiana, de nome Rosa.
Vendo um dia a patroa a escrever um livro, cujos originais se empilhavam no chão, Rosa perguntou:
– Mas a senhora ainda não acabou de escrever esse romance?
– Já terminei sim. Agora estou a consertá-lo.
– Ser cozinheira é melhor, dona Clarice. Se ponho sal demais na comida, não há mais jeito de tirar.
Rosa lia todos os romances que a patroa comprava. Depois de ter lido uma novela sombria de Daniel Rops, fez este comentário:
– Dona Clarice, meu noivo é igualzinho ao personagem deste livro.
– Por quê?
– Porque ele também é ruído por um mal desconhecido.
Pediu a Recherche de Marcel Proust, mas devolveu no dia seguinte o primeiro volume:
– Não quero continuar. Ele fala, fala, fala e não diz o que quer.
Rosa era capaz de imagens dignas do talento da patroa. Uma tarde de domingo, como esta perguntasse à moça se não ia sair para dar uma volta, ela respondeu:
– Não senhora. Vou me deitar. Se eu saísse, a cama se riria de mim.
Costumava fazer observações precisas como provérbios. Desceu uma vez as longas escadas do prédio e, daí a pouco, subiu-as novamente, explicando:
– Me esqueci do guarda-chuva. Quem não tem cabeça, tem boas pernas.