O general meu vizinho tem uma farda de gala muito bonita, mas eu não me importo que o general meu vizinho tenha uma farda de gala muito bonita – porque o meu prazer seria andar o dia todo de blusão e short.

O general meu vizinho tem uma casa de dois andares e um terraço espaçoso, mas eu não me importo – porque no meu pequeno apartamento há espaço para mim e para minha família, para minhas pequenas ambições e para minhas emoções.

O general meu vizinho tem um jardim – mas que regulamento poderia proibir-me de também gozar as flores que o cercam.

O general meu vizinho tem um revólver – mas quem sou eu, primo, para matar alguém. Quando servi o Exército, os exercícios de tiro me davam uma dor de cabeça que as aspirinas não debelavam.

O general meu vizinho tem uma influência enorme – mas eu fui feito para a autoridade dos amigos, que não têm outro interesse senão o incomensurável interesse da amizade.

O general meu vizinho tem algumas coisas em comum comigo: antes de mais nada somos uns pobres homens, vítimas da vida e da morte, roídos de ansiedades e de medos, sobressaltados pelos acontecimentos, sublevados aqui e ali pelos turbulentos impulsos humanos (inclusive o impulso de justiça).

Não é improvável que, em uma tarde dessas, eu e o general, à hora do crepúsculo, tenhamos recebido ao mesmo tempo e com o mesmo respeito, ele da sua varanda, eu da minha janela, o sortilégio da noite. Não é improvável, repito, que eu e o general sejam igualmente líricos e imaginativos, humanos e graves, doados do milagre da infância e sofredores, dois bons sujeitos enfim, um soldado, outro paisano.

O general meu vizinho é brasileiro que nem eu. Como eu, ouviu na escola e nas cerimônias patrióticas convencionais que o Brasil era grande, rico, poderoso e organizado. Como eu, é possível que o conhecimento da verdade, a verificação adulta de que o Brasil é pequeno, pobre, fraco e desorganizado, não tenha decepcionado o amor do general por sua terra e por sua gente, antes tenha tornado esse amor mais grave e responsável.

É por isso, nessa suposição de incidências entre a minha vida e a do general, que, sábado à noite, fiquei triste e sulcado de revoltas. Fizera um dia esplêndido, cheio de promessas. Logo no princípio da tarde, entretanto, as vozes das cozinheiras quebraram todas as possibilidades de bem-estar: “acabou a água”. E alguns minutos depois se sabia que não havia água por toda a circunvizinhança.

À meia-noite, frustrado, eu lia, quando ouvi o barulho de um veículo de grande porte estacionar perto de minha porta. Olhando pela janela, pude ver que um belo e reluzente caminhão-tanque dava de beber às caixas secas da casa do general. Foi então que, pela primeira vez, um sentimento de despeito pelo general cortou-me de raivas. De certo, se eu fosse general, teria a mesma fraqueza. Mas o meu vizinho paisano teria o mesmo direito de se ralar de indignação contra um Estado em que até no direito à água existe esse privilégio de classe. O que eu acho realmente consternador é termos chegado a uma tal barafunda administrativa que os ricos e influentes se vejam obrigados a usar da riqueza e da influência para a obtenção de água. 

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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