Rindo, de Martim Francisco, publicado em 1919, em S. Paulo, é um livro, de fato, engraçado. E raro.

Um de seus melhores capítulos é “Os grudes” (Para uso interno dos grupos escolares e uso externo de s. exa. o presidente de São Paulo), escrito em 1902. Nele o autor estuda os seguintes tipos de grudes (ou chatos, segundo a terminologia moderna): o grude fornecedor, o grude político, o grude jornalista, o grude que chegou do Rio de Janeiro (a São Paulo), o grude fundador da república, o grude profeta, o grude que brigou com o diretório local.

Em homenagens à grande classe a que pertenço, cedo meu lugar a Martim Francisco, transcrevendo abaixo o estudo do grude jornalista:

“Este é desesperador!” O adjetivo terrível, com certeza nasceu em sua presença. Quem o encontra pela primeira vez, tolera-o, iludido. Quem o atura duas ou mais vezes tem vontade de ir para o inferno. É quase sempre um principiante da imprensa. Passou de repórter a noticiarista, e de noticiarista a secretário de redação; teve algumas divergências com o livro caixa e deliberou fundar um jornal próprio para defender o governo, “pois o órgão oficial, redigido por gente incapaz e medrosa, emprega uma linguagem muito branda, incompatível com as circunstâncias da atualidade, os interesses da pátria e a consolidação das instituições”, etc.

De mais: odeia o anonimato; assina o que escreve e assume a responsabilidade dos artigos próprios e de alguns sonetos alheios. Timbra em alardear independência. E tudo no seu jornal: redator, colaborador, proprietário, revisor, remetente, e principalmente cobrador.

Regras: tem voz aflautada, físico pouco desenvolvido, maus costumes, filiação ilegítima e várias primas de meia idade, que apresenta a subchefes políticos mal casados. É o terror de quem tem qualquer quantia disponível, se bem que poucas vezes desfeche golpes superiores a 35 mil réis. Não paga dívidas: nasceu para devedor e nesta profissão se mantém. Há na sua vida uma época extremamente agradável: é quando, obtendo cartas de recomendação, vai ao interior do Estado angariar assinaturas para a sua folha. Na despedida, s. exa. acumula-o de delicadezas, chegando mesmo abraçá-lo. Aconselha-o a que se demore bastante em tais e tais localidades, as mais afastadas da capital, e, quando o grude parte, com passe do governo, está visto, s. exa. sente assim o prazer de quem tirou uma botina apertada. Nas localidades, planta o martírio na alma de quantas vítimas encontra. Ou mora no hotel e não paga hotel, ou se hospeda em casa de comércio e perpetra assinaturas.

Em Araraquara, há alguns anos, uma firma comercial de secos e molhados, composta de seis sócios portugueses que absolutamente não se envolviam em política, teve de tomar sete assinaturas: uma para cada sócio, e a sétima para a firma. Uma vez por semana — o grude tinha magnanimidade de ser hebdomadário — havia no armazém enchente de papel de embrulho.

Fora injustiça negar inteligência ao grude jornalista. Faltam-lhe porém talento e essa curiosidade estudiosa que promove e assegura a limpeza moral. De tombo em tombo o infeliz encerra as suas aspirações num emprego terciário de secretaria, quase sempre.

Remédio contra esse grude? Nenhum. É pagá-lo pela verba secreta, e esperar que a morte o procure.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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