9 set 1954

[Guerra no colégio 2: nós, os espartanos]

Como íamos dizendo, a reação psicológica da maioria espartana não fora prevista por “seu” Francisco. Fracassou o propósito deste de uma emulação virtuosa. Os espartanos se convenceram de que eram maus elementos e que nada podiam contra essa fatalidade.

Atenas contava com a manifesta simpatia do clero. Atenas impava-se de superioridade.

Nós, os espartanos, tivemos de reagir pela coragem e pela sabotagem, porque o nosso exército carecia de outras armas.

Os atenienses usavam as melhores roupas porque eram filhos de famílias mais prósperas. Eram mais belos e mais saudáveis, no que pese a verdade histórica. Sábios, alcançavam os primeiros lugares em suas classes. Pacíficos e amantes da ordem, conformavam-se à realidade colegial, o que lhes conferia segurança de maneiras e serenidade nas deliberações. Em Esparta, reinava a anarquia.

Eram os atenienses mais chegados aos poderes temporais: os pedagogos torciam indisfarçadamente por Atenas. De certo modo, nem os poderes espirituais falhavam a essa preferência que os elegia. Atenas praticava com mais frequência e fervor os ofícios religiosos e os exercícios pios. Esparta era tíbia em sua fé nas recompensas além do tempo.

Também eram os atenienses mais providos de recursos de boca. Recebiam de casa um suprimento que tornava a “boia” dispersada por “seu” Vicente mais carpável. Com a pimenta temperavam o insosso picadinho de batatas; assinavam leite; dispunham de variado sortimento de compotas e caixas de doces.

Aos filhos de Esparta, em geral, faltavam essas sadias ilusões terrestres. Não que deixassem de haver ricos entre nós e pobres entre eles. Em Atenas, estavam alguns pobres, entre os mais tímidos da Divisão dos Menores; e Esparta contava em suas fileiras com alguns ricos inadaptados.

Domingo era dia de dispensa. O padre-prefeito (o padre Braz Musso, que vive ainda hoje, e cuja longa e forte vida remonta aos tempos em que Dom Bosco organizava os oratórios de Turim para a infância abandonada) distribuía-nos os vales correspondentes à quantia semanal que os pais fixavam previamente aos filhos exilados. Com esses cartões, adquiríamos guloseimas, segundo as nossas capacidades financeiras.

O padrão de vida de Atenas era alto; o de Esparta, medíocre. Havia, mesmo, entre nós, mendigos, que nada recebiam, cujos pais não podiam se dar ao luxo do banquete dominical. As melhores almas espartanas procuravam socorrer seus concidadãos nascidos em desgraça, dividindo com as crianças sem riqueza o pedaço de goiabada, a fatia do queijo alvo e suado que vinha de Ouro Branco.

São patéticos os meninos pobres de um internato da classe média. De uma dramaticidade cuja lembrança me impediria de contar, com o ânimo votado à serenidade, a velha história de Atenas e Esparta, a narrativa do grande cisma que ocorreu em 1934 na Divisão dos Menores das Escolas Dom Bosco, hoje Colégio Dom Bosco, em Cachoeira do Campo, onde Filipe dos Santos, fugindo a seus algozes de Ouro Preto, foi preso, para pagar com um sacrifício bestial o seu amor à liberdade. Mas prometemos prosseguir a narrativa no dia de amanhã.

 

Nota: Título atribuído por Humberto Werneck à crônica identificada na base de dados da instituição como “Como íamos dizendo…”. 

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