Fui ao Maracanãzinho uma vez, e posso dar, dentro de uma sadia consciência de repórter, o meu depoimento. Poderão dizer que uma única experiência não será suficiente para alguém avaliar a capacidade do estádio, que os próprios técnicos que o construíram mobilizam recursos e aguardam condições mais favoráveis para realizar a medição definitiva. Creio que esse ponto de vista não prevalece.

Não sei se o estádio comporta 13 mil, 40 mil ou 400 mil pessoas, isso vai se tornando uma questão de ponto de vista. Quero apenas contar o que se passou comigo. 

Foi na noite do jogo Brasil contra a China Nacionalista. Um repórter amigo havia me dado três entradas para a arquibancada. Na companhia de dois amigos, entramos no Maracanãzinho (lá fora as filas eram extensas) no momento em que se iniciava o segundo tempo do jogo Uruguai contra França. Um exame rápido do ambiente mostrou-nos logo que seria temerário escolher muito. Pouquíssimos lugares vagos eram visíveis. Por esse motivo, nos arranjamos perto de uma boca de entrada, onde o cimento estava meio úmido.

Antes do término desse jogo, o público começou a entrar à nossa frente e pelas nossas costas, pisando-nos a valer e impedindo-nos a visão da quadra. Quando o jogo do Brasil começou, toda essa multidão, não tendo encontrado lugares, voltou, pisando-nos novamente, causando confusão, provocando protestos e discussões. Bem, assistimos ao jogo, vergando o corpo sobre os joelhos, apertando as pernas. Não apenas estávamos apertadíssimos pelos lados, como também pelas costas, porquanto os que não acharam lugar foram colocar-se nos intervalos das passagens. Também as bocas de entrada estavam apinhadas de torcedores em pé. Nos vãos destinados à entrada de ar os mais ágeis haviam grimpado, dando o espetáculo de um estádio mais superlotado do que o Maracanã-açu em dia de Flamengo e Vasco. Eu pensava justamente naquela súbita popularidade do basquetebol: ali havia de ter mais de 40 mil pessoas, se esta fosse a capacidade normal do estádio.

Eu e meus companheiros saímos do jogo (sem ficar para a última partida) em um cansaço como há muito não sentíamos. E absolutamente firmados no propósito de nunca mais voltar às arquibancadas do Maracanã-mirim. 

Meu espanto, dois dias depois, foi imenso. Os técnicos afirmavam que a capacidade do estádio não estava sendo explorada devidamente porque as pessoas se assentavam por demais folgadamente em seus lugares. Juro, pelo que há de mais sagrado, que nem a metade do meu amigo José Sanz conseguiria um lugar sentado no Maracanã na noite do jogo Brasil e China. Os técnicos se equivocaram. 

Talvez nem mesmo hajam se equivocado. A ciência tem corrido tanto que a gente não pode ir dizendo coisas levianamente. Einstein mostrou que o espaço é também uma forma de intuição. Dele só podemos ter uma ciência tão relativa quanto a consciência que temos das cores. Os técnicos do Maracanãzinho são einsteinianos: e o Brasil deve orgulhar-se disso.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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