É este o nome sólido da mais recente revista literária que se publica em Minas Gerais. Agora, em um triunfante segundo número contendo 25 depoimentos de moços mineiros sobre questões atuais. Trata-se portanto do improvável ato de fé de duas dúzias de aspirantes de escritor, quer dizer, de pessoas que ainda não consolidaram seus namoros literários no compromisso de um livro.

Cinco perguntas constituem a provocação a falar: 1) Como situa você sua geração? 2) Quais as modificações que julga necessárias para a estruturação política do mundo de amanhã? 3) Haverá nova orientação para a literatura? 4) Qual deve ser a contribuição do artista na formação política do povo? 5) Quais os autores que mais o influenciaram e os que vê mestres de sua geração?

As respostas perfazem uma súmula da história da humanidade, suas angústias, seus problemas de cultura, tudo. O que alguns resolveram com espontaneidade. Aos vinte anos, a gente sabe todas as coisas. O tempo é que nos corrói de dúvidas, substituindo por melancólicas interrogações as gloriosas certezas. Não me apoio em experiência pessoal, eu ainda sou um sábio. Diante porém, da diferença entre o que eu soube e o que sei, acabei desconfiando que muito em breve, estarei indigentemente ignorante. A profundidade sobretudo a gente perde depressa. Mais dois ou três anos estarei dando o pé – qualquer sujeito compreenderá tudo que eu sou e tudo que eu quero dizer.

A maioria dos depoentes de Edifício, pelo contrário, é de uma profundeza oceânica. Ora, dizia Jules Renard, aos vinte anos escrevemos profundamente, e mal. "Geunesse!!" – diria Victor Hugo por sua vez.

Entretanto, a vida se responsabiliza pelas possíveis intenções irônicas. Em mim Edifício e seus moradores só encontram a compreensão, que não lhes interessa, e toda a flama de uma capacidade de amor bem modesta.

Dos vinte e cinco moços, dez são comunistas, cinco católicos, e os outros dez, ou uma mistura de "frappé" entre o comunismo e outro ingrediente, ou moços apenas. São acima de tudo uns ótimos sujeitos. Posso dizê-lo porque os conheço todos, numa convivência circular de mesa de café e em pilequinhos sentimentais madrugada afora. Nos últimos tempos o rigor do marxismo militante tenta desmoralizar estas camaradagens, demasiado tolerantes, em que os partidos inimigos nutrem um pelo outro uma secreta ternura. Mas, em Belo Horizonte, como no poema de Castro Alves, a corça e o jaguar abrigam-se na mesma pedra. Lá, o artigo 13, é sistemática e honestamente burlado. É uma fatalidade mineira.

Basta ver Edifício. Fundada por comunistas e por um moço enorme de Goiás, a revista, entretanto, ofereceu as suas páginas a todos os outros jovens escritores, contando, exigência mínima, que não fosse fascista.

Com isso Minas pôde ter sua revista literária, e não partidária, prazer de que se privava desde quando o DIP barrava as iniciativa culturais.

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