Periódico
Diário Carioca
coluna: Semana Literária. Publicada também no livro De um caderno cinzento, de 2015, pp.140-143

Lida a biografia de Gide por Klaus Mann. Lida com curiosidade e sofreguidão. O filho de Thomas Mann depois dessa leitura, entretanto, continua para nós apenas um filho de Thomas Mann. Seu livro não é um bom estudo nem biográfico nem psicológico e, muito menos, apresenta alguma importância com relação à crise do pensamento contemporâneo, da qual o biografado representa um dos homens do leme. Bonzinho, eis o que exprime o valor real do volume de 300 páginas que o mais moço dos escritores Mann escreveu sobre André Gide. Na verdade, não há nenhum deslize sério, nenhuma interpretação generosamente fracassada, nenhuma aventura de inteligência percorre o livro. Klaus Mann parece um velho, um velho de aceitável bom gosto, honesto, conhecedor da técnica literária, bem informado sobre os problemas do homem e do nosso tempo. Tudo isso, enfim, que é comum em qualquer europeu de talento mediano e que representa um enorme esforço para o intelectual brasileiro, mesmo para os de talento mais agudo.

O equilíbrio que Klauss Mann mantém do princípio ao fim é admiravelmente medíocre. Nada, porém, ficamos sabendo de novo sobre Gide. O autor não julga propriamente André Gide. Quando muito, num prefácio tímido, consente numa aceitação global do biografado. Durante todas as outras páginas seguintes se entrega a uma não-participação irritante, inútil. Medo assim, diante de um Gide, aceitação dessa maneira é intolerável. Não é um livro desse que gostamos de ler sobre o criador de Alissa. Preferiríamos uma defesa mais consciente e mais sábia ou, então, um combate apaixonado a Henri Massis. Não julgar – lembro-me – é o próprio Gide que recorda esse preceito evangélico. Entretanto, como deixar de julgar se a esperança dos homens está em jogo? Julgar sempre, preferimos, ainda que não seja em nome de um credo e apenas em nome da nossa diversidade, da nossa insegurança, da nossa incerteza.

Gostamos dos livros apaixonados. Eles nos parecem mais úteis do que a compreensão fria. Foi justamente a paixão colocada em suas obras que nos fez um dia aproximar de André Gide, sedentos de compreensão, esperar que dele nos viesse um pouco de consolo em forma de uma convicção, desesperada que fosse. E isso também nos faz agora frios perante o livro de Klaus Mann.

Muitos moços como eu se ligaram tanto às verdades e mentiras gideanas, às suas revisões fabulosas e às suas deformações abismantes, que devemos nos sentir todos incapacitados de falar delas sem evocar uma história íntima de alegria e decepções. André Gide para os moços é um assunto pessoal. Quantas moedas falsas recebemos! Hoje estamos confusos. Não sabemos mais o que fazer de um antigo ídolo como André Gide. Ele era o nosso guia. A malícia do tempo ensinou-nos que nós o guiamos, que o coração da juventude é que dirige a inteligência de Gide.

Por minha parte, sou um aliado da minha própria confusão, tomei o partido dos seus erros, não me responsabilizo pelos descaminhos a que me levaram o meu inconformismo. Procuro e sou um homem confuso. Não podem exigir de nós mais do que a vontade de crer. É em nome da nossa desorientação que devemos continuar falando, testemunhando.

Nesse sentido, procuramos um auxílio no livro de Klaus Mann. Gide bem que serviria para essa busca de uma verdade além de Gide. Mas o jovem Mann, filho de uma cultura avançadíssima, não conseguiu em trezentas páginas fixar o seu depoimento, Klaus Mann decepciona. No plano literário o livro tem a qualidade de fornecer um “resumo lúcido” de toda a evolução por que passou André Gide; aos que não quiserem ler os quatro volumes do diário do próprio Gide. A célebre diversidade gideana é bem situada pelo autor. Apenas, diga-se de passagem, Gide não é afinal tão diferente de si mesmo quanto pretende ou gostaria de parecer. Seu valor e sua originalidade estão muito menos nessa complexidade do que na inteligência com que desejou e soube explorá-la, ampliá-la através de um refinado virtuosismo. Particularmente, preferimos Montaigne mesmo. Entre Gide amigo e discípulo de Wilde, o Gide comunista e o Gide anti-comunista não chega a existir um abismo. Isso, entretanto, é uma longa história. Concordamos que não é decente compreender André Gide tão depressa. Ele, na verdade, usa de vez em quando algumas máscaras; mas é um sujeito realmente espantoso.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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