Exma. Sra.
D. Alzira Vargas do Amaral Peixoto
Comissão do Bem-Estar Social

Senhora ―

Estou certo de que não conheceis a minha obscura pessoa: não sou visível com muita frequência nos palácios em que a senhora cresceu e tem vivido. Podeis ficar certa, senhora, que em me não conhecer nada perdeis. Mas também nada perdereis em me ouvir, ou ler. Não vos tomarei muito tempo; sei que o vosso é curto.

Não devo esconder, para começar, que sempre tive ― e tenho ― pela senhora esse respeito comovido que a gente da plebe sente pela filha do rei. Mesmo sem contar os vossos dotes de beleza e de espírito, bastaria para mim esse encanto natural que exorna, para as pessoas de minha (triste) condição, uma jovem que tem todos os direitos de usar o título, entre todos sedutor, da princesa do Brasil.

Ora, acontece, minha Senhora, que até hoje tendes feito política da maneira discreta, como fazem as damas ― sussurrando e murmurando coisas ao ouvido dos homens que mandam, e desmandam. Vosso poder, ao que se diz, tem sido grande, e jamais diminuiu por ser discreto. Hoje, porém, vindes enfrentar as luzes da vida pública, presidindo uma Comissão onde falastes dos problemas dos campônios deste reino; e agora nessa Comissão do Bem-Estar Social, onde tendes assento, e nós, os pobres, temos a nossa esperança.

Coisa grave é, Senhora, a esperança. Muitas acendeu o senhor vosso Pai, e sabeis quão amargas resultam quando se frustram, e perdem. O nome dessa Comissão não é um nome, é uma Bandeira de Esperança. Mas é preciso, contar, Senhora, com a maldade das línguas do povo; já há quem murmure que neste país “bem-estar” é o nome de uma Comissão. Sofro horrendamente em vos dizer a verdade, mas a verdade, Senhora, é que o povo está mal. Já se diz que, se foi preciso criar no Governo uma Comissão de Bem-Estar, isso quer dizer que os outros serviços do Governo não cuidam disso, quando seria de esperar que todos cuidassem só disso, e mais de coisa alguma. Sabemos, agora, que metade dos lucros das companhias de seguro irá para a Comissão. Como ireis aplicar tamanho dinheiro? Temos o Ministério da Educação e Saúde, e as Secretarias, e os Institutos, e os Serviços Sociais, e mais não sei quantos departamentos e comissões e fundações e instituições públicas e particulares de assistência que protegem o povo com tanto afã que seus chefes vivem a se atropelar quando correm em socorro do pobre. Temos o Ministério do Trabalho, temos leis sociais esplêndidas, as melhores do mundo, como dizem as pessoas que não conhecem nem o mundo, nem as leis. Para que tanto dinheiro para essa Comissão? O perigo, Senhora, é vir algum má língua dizer que esse dinheiro será gasto em fazer benemerências que ajudem ambições. Vemos na Argentina a senhora Eva Perón fazer ao mesmo tempo caridade e propaganda, o que é feio. E se aquela senhora, que é Rainha, faz isso, que não fará uma que é Princesa e pensa em chegar a Rainha?

Este, Senhora, não é raciocínio meu. É maldade que por aí se bacoreja. Já esse má língua que é o sr. Rafael Corrêa de Oliveira afirma coisas ruins. Esse senhor Rafael, é bem verdade, não tem importância. Fazei com ele, Senhora, o que faço, que é o não ler. Mas não é melancólico e injusto que vos sacrifiqueis em trabalhos e canseiras para, ao fim, serde: tão mal interpretada pela ignara plebe?

Eis o que, Senhora, eu vos tinha a dizer ― e perdoai alguma má palavra. 

Súdito inútil.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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