O mexicano Siqueiros havia me dito que tinha vontade de conhecer De Chirico; levo-o de noitinha ao apartamento do pintor, na Piazza di Spagna. Há outras visitas — uma pintora tcheca, uma jovem romana estudante de pintura que conversa com a russa mulher de De Chirico, a esposa de um compositor. 

As paredes do vasto apartamento estão cheias de quadros; são naturezas mortas, mulheres, cavalos de rabo grosso, tudo com uma pintura gorda, muito oleosa, muito 1700, que só por algumas distorções (nem sempre presentes) do desenho e por alguma pincelada mais ousada escapa aos quadros acadêmicos. É impossível não preferir as antigas muse, as velhas piazze de Italia, os quadros chamados metafísicos, os homens mecânicos, os velhos cavalinhos saltando entre ruínas feitos há 20 anos ou mais. Mas nenhum de nós dirá isso a De Chirico; vemos gravemente seus quadros, alguns, de resto, bastante interessantes e apenas procuramos ficar de costas para um dos maiores deles — mulheres numa praia entre pedras — de fatura diferente dos outros e assombrosamente ruim: parece coisa de um principiante que pela primeira vez expõe na secção acadêmica do Museu de Belas Artes do Rio; é intolerável. 

De Chirico fala mal dos marchands de tableaux que queriam obrigá-lo a fazer os mesmos quadros eternamente. Como não os faz, alguém fez por ele. O pintor ganhou um processo (com indenização) que moveu contra a Mostra de Veneza, onde foi exposto um falso quadro seu: apreendeu um quadro que Katherine Dunham, a bailarina negra, comprou em Paris e mandou para ele assinar; também não era seu.

Depois que Siqueiros sai, ainda fico uns 20 minutos: De Chirico dá conselhos, que me parecem salutares, à estudante de pintura. Não, não tem tempo para dar aulas. Que a moça faça retratos e sobretudo nus; quanto mais nus tentar fazer, melhor, e faça nus completos, com pés e mãos bem desenhados e pintados. E principalmente copie quadros. Não vale a pena copiar nos museus, que são desconfortáveis. 

Compre uma reprodução razoável de Rafael, ou Rubens, ou quem quer que seja, leve para casa, e procure fazer a cópia melhor possível. É um exercício ainda melhor do que pintar do natural: neste caso o aluno pode esconder para si mesmo uma incapacidade técnica de obter determinado efeito, alegando que sua “interpretação” da natureza é assim. “Depois de um ano ou mais desse exercício, copiando quadros de pintores mais diversos, e quando sentir que já é uma artesã razoável, então — diz o pintor — você pinte o que quiser e como quiser, faça abstracionismo ou o que lhe der na telha. Antes, não.”

Não há grande novidade nesses conselhos, mas acredito que eles aproveitariam a muita gente. De Chirico não me esconde sua surpresa pelo fato de Siqueiros ter querido conhecê-lo. Suas relações com os pintores modernos são azedas, devido em parte a declarações que fez contra toda a pintura do impressionismo para cá e em parte também (creio eu) à influência de sua mulher, que o exalta e o irrita contra os colegas. 

O fato é que está encantado com Siqueiros, que foi muito amável: “um gentiluomo, um vero gentiluomo questo messicano”.

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