Silone escreveu uma peça teatral tirada de seu livro Pão e vinho e que me parece muito superior ao livro. É uma peça em que entram cristianismo e comunismo; mas tudo isso através da vida, e de uma vida simples. Não tenho dúvida de que qualquer dia essa peça será representada no Brasil, e como não sou crítico de teatro (nem de filosofia), deixo honradamente ao leitor o trabalho de julgá-la.

Lembrei-me disso hoje por causa de um padre que há no drama. É um padre que parece não estar funcionando muito bem da cabeça. Cai na pior heresia. Ele acredita, por exemplo, na Sexta-Feira da Paixão. Mas não acredita no Sábado de Aleluia. Vejam que tremendo espírito de porco há nessa tese. Cristo não morreu, nem, portanto, ressuscitou. Cristo está morrendo. Sua agonia se prolonga. Ele agoniza ao longo dos minutos e dos séculos, torturado pela nossa maldade, pelos nossos erros tão negros. Cada ruindade que fazemos é um espinho em sua carne. Ele está sempre morrendo.

Contada assim, por um cronista leviano, essa história parece não ter importância. Mas vivida por um espírito crente é profundamente patética. É intolerável. O ano inteiro será de Paixão, sem nenhuma aleluia. O bom cristão, que tanto se compunge na sexta-feira, mas sempre, através das lágrimas, tem um olho aberto para o desafogo no sábado, teria de viver numa eterna sexta-feira. Ó tu que jogas pif-paf, ó mulher de olhos claros que emudeceste na Paixão o riso claro como trinado de canário, e todavia jogas pif-paf no sábado, larga essas cartas. Cessa a música dos bailes, o cálido murmúrio do amor no portão, e assim também o berro do esporte, a gargalhada do cinema: e que se cale o assobio profano: Cristo está em plena agonia, tu o torturas, com teu prazer.

Não são os pecados de cada homem que mais angustiam o padre louco de Silone. São os pecados sociais. É a opressão e a exploração do homem pelo homem que o amarga. Ele vê em Cristo a lição de igualdade e justiça. O Diabo age através da mais-valia, atrás do lucro... Não é diante do ministério da Fazenda, mas diante de Deus que o capitalista tem de prestar contas dos lucros extraordinários.

É forte, mas talvez muitos prefiram...

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Silone escreveu uma peça teatral tirada de seu livro Pão e vinho e que me parece muito superior ao livro. É uma peça em que entram cristianismo e comunismo; mas tudo isso através da vida, e de uma vida simples. Não tenho dúvida de que qualquer dia essa peça será representada no Brasil, e como não sou crítico de teatro (nem de filosofia), deixo honradamente ao leitor o trabalho de julgá-la.

Lembrei-me disso hoje por causa de um padre que há no drama. É um padre que parece não estar funcionando muito bem da cabeça. Cai na pior heresia. Ele acredita, por exemplo, na Sexta-Feira da Paixão. Mas não acredita no Sábado de Aleluia. Vejam que tremendo espírito de porco há nessa tese. Cristo não morreu, nem, portanto, ressuscitou. Cristo está morrendo. Sua agonia se prolonga. Ele agoniza ao longo dos minutos e dos séculos, torturado pela nossa maldade, pelos nossos erros tão negros. Cada ruindade que fazemos é um espinho em sua carne. Ele está sempre morrendo.

Contada assim, por um cronista leviano, essa história parece não ter importância. Mas vivida por um espírito crente é profundamente patética. É intolerável. O ano inteiro será de Paixão, sem nenhuma aleluia. O bom cristão, que tanto se compunge na sexta-feira, mas sempre, através das lágrimas, tem um olho aberto para o desafogo no sábado, teria de viver numa eterna sexta-feira. Ó tu que jogas pif-paf, ó mulher de olhos claros que emudeceste na Paixão o riso claro como trinado de canário, e todavia jogas pif-paf no sábado, larga essas cartas. Cessa a música dos bailes, o cálido murmúrio do amor no portão, e assim também o berro do esporte, a gargalhada do cinema: e que se cale o assobio profano: Cristo está em plena agonia, tu o torturas, com teu prazer.

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Silone escreveu uma peça teatral tirada de seu livro Pão e vinho e que me parece muito superior ao livro. É uma peça em que entram cristianismo e comunismo; mas tudo isso através da vida, e de uma vida simples. Não tenho dúvida de que qualquer dia essa peça será representada no Brasil, e como não sou crítico de teatro (nem de filosofia), deixo honradamente ao leitor o trabalho de julgá-la.

Lembrei-me disso hoje por causa de um padre que há no drama. É um padre que parece não estar funcionando muito bem da cabeça. Cai na pior heresia. Ele acredita, por exemplo, na Sexta-Feira da Paixão. Mas não acredita no Sábado de Aleluia. Vejam que tremendo espírito de porco há nessa tese. Cristo não morreu, nem, portanto, ressuscitou. Cristo está morrendo. Sua agonia se prolonga. Ele agoniza ao longo dos minutos e dos séculos, torturado pela nossa maldade, pelos nossos erros tão negros. Cada ruindade que fazemos é um espinho em sua carne. Ele está sempre morrendo.

Contada assim, por um cronista leviano, essa história parece não ter importância. Mas vivida por um espírito crente é profundamente patética. É intolerável. O ano inteiro será de Paixão, sem nenhuma aleluia. O bom cristão, que tanto se compunge na sexta-feira, mas sempre, através das lágrimas, tem um olho aberto para o desafogo no sábado, teria de viver numa eterna sexta-feira. Ó tu que jogas pif-paf, ó mulher de olhos claros que emudeceste na Paixão o riso claro como trinado de canário, e todavia jogas pif-paf no sábado, larga essas cartas. Cessa a música dos bailes, o cálido murmúrio do amor no portão, e assim também o berro do esporte, a gargalhada do cinema: e que se cale o assobio profano: Cristo está em plena agonia, tu o torturas, com teu prazer.

Não são os pecados de cada homem que mais angustiam o padre louco de Silone. São os pecados sociais. É a opressão e a exploração do homem pelo homem que o amarga. Ele vê em Cristo a lição de igualdade e justiça. O Diabo age através da mais-valia, atrás do lucro... Não é diante do ministério da Fazenda, mas diante de Deus que o capitalista tem de prestar contas dos lucros extraordinários.

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