A escrita entre as quatro linhas

Estádio do Maracanã - Jogo entre Flamengo e Fluminense, circa 1967. Foto de Marcel Gautherot/ Acervo Instituto Moreira Salles

Paulo Mendes Campos tinha pelo Botafogo uma fidelidade acima de qualquer suspeita. Houve um dia, porém, em que ele traiu o objeto de sua paixão futebolística – e logo com que outro, o Flamengo! Mas não vale julgar por aquele episódio – solitário como a estrela que adorna o escudo de seu time – a solidez de seu amor ao clube da rua General Severiano. Na história, “Salvo pelo Flamengo”, passada num lobby de hotel em Estocolmo, em 1956, a traição se justifica como legítima defesa. Não venha alguém dizer que não faria o mesmo, se à sua frente se plantasse, embriagado, ameaçador, um sueco dos grandes.

No mais, o cronista mineiro – ele próprio um craque também entre as quatro linhas – sempre foi irrepreensivelmente fiel a seu clube, e disso é prova a deliciosa “O Botafogo e eu”, na qual, com elã de enamorado, ele enumera o tanto que há em comum entre a agremiação amada e o torcedor apaixonado. 

Nesse particular, Paulo estava a léguas do colega e amigo vitalício Otto Lara Resende, conhecido por sua inapetência esportiva, fosse como espectador, fosse, mais ainda, como atleta. “Em matéria de futebol”, avisa este já na primeira linha de “Bola murcha”, “costumo dizer que sou Botafogo desativado.” Até onde a vista alcança, Otto nunca terá ido além de umas peladas de basquete na adolescência, em sua São João del Rey natal, ele pelo Instituto Padre Machado, Paulo Mendes Campos pelo Colégio Santo Antônio. Quando Armando Nogueira, sempre em forma, lhe receitava ginástica, Otto retrucava dizendo que o amigo, de tanto se exercitar, daria um defunto magnífico. E invocava o exemplo do leão, que, com toda aquela fortaleza, jamais fora visto a malhar na academia.

Não surpreende, assim, que Otto Lara Resende não tenha sido escalado na seleção de escribas que em dezembro de 1945 disputaram nas areias do Rio um animado Copacabana versus Ipanema-Leblon – rara partida, aliás, em que todo gol seria necessariamente um gol de letras... Entre outros, lá estiveram Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Aníbal Machado, Paulo Mendes Campos, Augusto Frederico Schmidt – e, como zagueiro do Copa, Rubem Braga, a quem devemos saboroso registro do “match” (como queria a fala florida dos locutores esportivos de então), em “Ultimamente têm passado muitos anos”, crônica cuja primeira versão publicada se intitula “A companhia dos amigos”. 

Honesto o bastante para confessar que deu “uma traulitada” num adversário, o mesmo Braga, em outra crônica, “A equipe”, volta ainda mais fundo no tempo e na geografia, vai à adolescência em Cachoeiro de Itapemirim, ao dia em que um jornal local, reportando uma partida, qualificou de “valoroso” o meia-direita do Esperança do Sul Futebol Clube. O cronista revisita aquele jogo, e, diante de uma velha foto, reconhece com ternura, sem dizer-lhe o nome, “um rapazinho feio, de ar doce e violento”.