
Crianças dançando o frevo, Recife-PE, circa 1957. Foto de Marcel Gautherot/ Acervo Instituto Moreira Salles.
Poucos anos antes de morrer, Antônio Maria propôs ao editor José Olympio um livro de memórias para quitar uma dívida antiga. O projeto de antologia, assim como todos os anteriores, ficou para sempre engavetado. Tivesse sido publicado, é bem provável que constassem em espaço de destaque as crônicas sobre os carnavais de sua infância no Recife, pois poucas coisas marcaram tanto o jovem Maria quanto os incomparáveis forrobodós de sua terra.
Em “Carnaval antigo... Recife”, o cronista explica que a farra por lá começava cedo – desde a véspera do Natal, os blocos tomavam as ruas, primeiro com coros carnavalescos mais líricos, talvez por influência das procissões religiosas, e depois engatavam no Vassourinhas. O frevo rasgado acordava na alma “uma alegria guerreira”, e o menino não demorava a se juntar ao povo, “onde cada rei fantasiado” e “cada rainha de cetim” eram verdadeiros soberanos “da voluntariedade, do absolutismo, do amor e do futuro”.
No Recife, o despontar do Carnaval “era um grito de alforria” coletivo. Maria se sentia “inopinadamente órfão e livre”, desapegado como o próprio vento, e “cada homem e cada mulher eram uma parte daquele furacão libertário”, livres de amarras e “esquecidos de Deus”. Como toda revolução, aquela também era cheia de revolta. “Não tenho a menor dúvida de que aquilo que fazia a beleza do Carnaval pernambucano era a revolta”, pondera o cronista – revolta e amor; “porque só de amor, por amor, se cometem os gestos de rebeldia”.
Na mesma cidade, onde viveu dos cinco aos 15 anos, a pequenina Clarice Lispector também passou por uma experiência carnavalesca transformadora, contada em “Restos de Carnaval”. Quando a festa ia se aproximando, os coros anunciavam uma “capacidade de prazer” ainda secreta para aquela mocinha, que assistia a tudo sem participar de nada. Por causa da doença de sua mãe, que sofria de uma paralisia progressiva provavelmente decorrente de sífilis, o ambiente de sua casa era grave e severo. Clarice nunca tinha ido a bailinhos nem se fantasiado de nada, e os pais só a deixavam ficar na porta de casa, “olhando ávida os outros se divertirem”. Ela era tão sedenta por aquela liberdade “que um quase nada” já a deixava feliz.
Em certo Carnaval, talvez atendendo a um apelo mudo da menina, uma amiga da família a presenteou com uma fantasia improvisada de rosas feitas com restos de papel crepom. “Pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma”, compreendeu a escritora. Mas o prenúncio de festa foi interrompido por uma piora súbita de sua mãe. Um alvoroço repentino se criou e Clarice foi despachada para buscar remédio na farmácia. Foi correndo fantasiada, “entre serpentinas, confetes e gritos”, perplexa com a alegria dos outros.
Na volta, sua fantasia feneceu, como nas histórias de fada que de repente se desencantam, e a menina já não era mais uma rosa. Era, de novo, uma simples menina. Com o coração triste, retomou seu posto na porta de casa, vendo a folia alheia. Foi quando passou um menino que, numa “mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade”, jogou-lhe um punhado de confetes na cabeça. Os dois ficaram se sorrindo, em silêncio. Era a primeira vez que alguém a reconhecia como parte da festa, e graças a isso ela pôde ser, finalmente, uma rosa naquele Carnaval.
Falando em confetes, Paulo Mendes Campos tinha três ou quatro anos quando uma senhora roubou os seus durante um festejo carnavalesco. O caso foi registrado na triste crônica “Um saco de confete”. Era domingo e a sala de sua casa estava tomada de gente farreando num duelo de confetes. A tal senhora aproximou-se da criança e, com carinho, pediu emprestado o seu saco de confete, com a promessa de pagar em dobro. O infante Paulo não quis renunciar ao seu punhado de felicidade. Então, com a mão direita, a senhora usurpou-lhe o saco de confetes, enquanto a esquerda acariciava sua face.
“Tive vontade de chorar, mas não chorei, fiquei zanzando pela sala, de mãos vazias, miserável”, relembra o cronista. Ele cogitou pegar um saco vazio e enchê-lo de rodelinhas coloridas espalhadas pelo assoalho, mas teve medo do “bosque de pernas que se movimentavam bruscamente”. Encostado na parede, não despregou os olhos da senhora, “na esperança subnutrida” de que ela se lembrasse de sua promessa. Aproximava-se de modo a esbarrar nela, mas “Sai daí, meu bem” foi tudo o que ela disse.
Derrotado, o menino foi para o quintal. Subiu numa árvore onde comeu um pêssego verde e maquinou planos infalíveis contra a ladra. A vontade de fazê-la pagar por sua crueldade era imensa, mas a disposição para executar a vingança não. Voltando para a sala, viu a senhora girando feliz. Teria sido fácil abrir a boca e reclamar para alguém. Mas o difícil era, justamente, abrir a boca. Logo no começo da vida, o poeta Paulo Mendes Campos “já preferia sofrer a explicar o que se passava”.