Historinhas nupciais

Casamento coletivo, Bom Jesus da Lapa-BA, 1947. Foto de Marcel Gautherot/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Ele estava completamente convencido da importância das Férias conjugais, uma separação temporária entre o casal para assoprar aquela “imperceptível poeira” que a fadiga do convívio vai depositando em nossos corações. Ela, porém, não muito.

O marido apresentou argumentos “práticos, domésticos, fisiológicos, climatéricos, terapêuticos, econômicos e pedagógicos”. Mesmo sem compreender a razão de um deles sequer, a esposa “não ficou no exame psicológico da questão” e concordou em passar uma temporada no interior. “Espero que quando voltar você não esteja casado”, ressalvou, antes de partir com malas e filhos.

Durante a primeira semana de solidão, o sujeito viveu “venturoso como um rei”, dono de um poder extraordinário. Chegava tarde em casa, levantava a qualquer hora, ouvia a vitrola no máximo, bebia com os amigos depois do trabalho, sem espaço para preocupações. Naturalmente, as “providências tomadas pela mulher começaram a falhar”. A geladeira foi se esvaziando, as pendências domésticas se acumulando e os serviços, por falta de pagamento, foram sendo cortados. Nem o próprio café o homem conseguia fazer sem queimar a mão.

Ilhado e feroz, diante da rápida queda de seu reinado masculino, ele vestiu uma roupa amassada e foi direto para os Correios. Dali uns dias a esposa receberia um telegrama urgente: “Morto de saudade volte o mais breve possível ponto beijos”.

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Morando em Paris há muitos anos, quase sem se comunicar com os amigos brasileiros, Irene soube que Inês tinha se casado. Imaginou que ela finalmente tivesse realizado o seu sonho de matrimônio com um poeta talentoso, já que O ideal de homem da amiga sempre foi, desde os tempos do colégio, um sensível versejador.

Apesar da advertência de Irene de que os homens de letras, “estroinas e volúveis”, não davam para bons maridos, Inês sonhava em ter seu nome imortalizado num belo poema, quem sabe um soneto digno de antologias. Moça feita, ela arrastava asa para todo poetastro que surgia, cheia de “vagar, ardor e uma ingênua admiração”. Figurinha carimbada nos salões de literatura, não havia conferência em que lá não estivesse, na primeira fileira, a contemplar os moços.

Quando Irene retornou de Paris “com medo dos azares da guerra”, as amigas se reencontraram no Rio de Janeiro. “Já vi que o teu marido é um grande poeta”, puxou logo o assunto. Inês, sem rodeios, respondeu: “Não; é campeão do football”.

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Nas crianças, o amor “é um estado de alma absorvente, pastoso e imenso” que, sem forma definida, manifesta uma mistura de sonhos, medos e ânsias – um meninote enamorado, por exemplo, deseja que “a amada comece a morrer afogada” de repente, só para poder salvá-la como um herói. A Primeira paixão deixa marcas confusas que só entendemos, com sorte, bem mais tarde.

Certo dia, a filha entrou no escritório onde trabalhava o pai e andou até ele de olhos baixos. De um jeito “tão humilde, tão vitorioso e tão vencido”, comunicou, simplesmente, que estava noiva. O pai perguntou de quem, e ela disse o nome de um menino da vizinhança. Olhando para a sua carinha de oito anos, sentiu vontade de rir, mas isso seria “quebrar a alegria de um dia de noivado”. Do jeito mais sério que pôde, o pai deu-lhe os parabéns e desejou felicidades ao casal. E olhando bem dentro dos seus olhos, “da cor de abacate maduro”, viu acordes da Marcha nupcial, do alemão Felix Mendelssohn.