Ciro dos Anjos me conta a história de um sujeito de Belo Horizonte. Inspetor de ensino, que tinha muitos amigos na imprensa. Um dia veio um telegrama de uma cidadezinha do Oeste, aonde ele fora, noticiando a sua morte. Todos os jornais publicaram – “figura benquista nos meios educacionais”, etc. – e dias depois ele visitava todas as redações para agradecer – e confessar que o telegrama era seu mesmo: não resistira ao desejo de ver o que a imprensa diria quando ele morresse.
A única punição que um secretário de jornal encontrou para essa brincadeira foi se negar a retificar a notícia. “Aqui você continua morto”. E dias depois, como tivesse de fazer uma referência a ele, usou antes de seu nome, o adjetivo sacramental: “o saudoso Fulano de Tal”. Essa brincadeira pareceu de excessivo mau gosto ao falso defunto: afinal nós podemos brincar com a nossa própria morte: os outros não.
Que a vaidade dos homens se projete além da vida, é coisa comum. Dizem que o sr. Cláudio de Souza, que é um dos nossos imortais, não confiou nos amigos nem parentes, muito menos nos admiradores: mandou fazer para si mesmo um confortável mausoléu e ele próprio redigiu o epitáfio: mas isso já me parece um certo abuso. Afinal nós somos donos de nossa própria morte mas não do que vem depois. Isso é com Deus e com os outros.
Estamos vendo agora uma onda de homenagens póstumas a Eva Perón são tantas e tais essas homenagens como nunca se fez a ninguém: a impressão que se tem que elas tiram, pelo exagero e grandiosidade, essa impressão dolorosa, humana e simples que todos tivemos ao ver morrer, de maneira tão cruel e tão cedo, a ilustre senhora.
É penoso pensar que, além do luto verdadeiro, há nisso uma exploração emocional para fins políticos, e que muitos desses vivos, que propõem ou executam homenagens, não estão pensando na morta, mas no viúvo. O verdadeiro culto aos mortos não exclui um certo pudor: em grande parte ele dispensa as pompas, e vive apenas de um pensamento humilde e triste.
Esse tipo de homenagens múltiplas e grandiosas tende a afogar a emoção: faz da morte alguma coisa barroca, atropelada de ornatos e floreios vãos. Talvez para esconder a sua terrível simplicidade.