Não fomos ao sertão da Paraíba, nem mesmo a Campina Grande; também não visitamos a igreja de Nossa Senhora da Guia, nem mesmo Cabedelo. Não ficamos sabendo como vive o povo, apenas nos contaram que o primeiro ano de governo do sr. José Américo foi infeliz, com uma seca terrível e uma praga do algodão. Ele espera encontrar pela frente melhores dias, e está satisfeito por ter melhorado a arrecadação. Com as chuvas, a migração certamente diminuirá; mas um estudioso novo, o sr. Lopes de Andrade, acha que “nas condições atuais em que vive, e mesmo em outras mais imediatamente favoráveis, não é possível à população nordestina, ainda quando não excedentária, permanecer dentro de fronteiras rígidas; uma forma de migração tecnicamente organizada torna-se, assim, imprescindível, e é tudo que de melhor se poderá prever para o Nordeste dentro dos próximos 50 anos”.
Acho que, com as mudanças bruscas que as descobertas científicas e técnicas produzem hoje na economia, falar em 50 anos é uma imprudência; estou certo de que a execução completa da hidrelétrica de Paulo Afonso já bastará para alterar de maneira surpreendente a fisionomia econômica do Nordeste – e neste particular acredito que o sr. Clemente Mariani está cheio de razões quando se bate contra o pretendido contrato com uma organização estrangeira que deseja instalar uma fábrica de alumínio.
Não me desespero tanto quanto a maioria das pessoas quando vejo caminhões cheios de nordestinos emigrando para o Sul. Se uma parte desses homens vem para as cidades se tornar “favelados”, a maioria vai em busca de terras novas e ricas. Seria monstruoso tentar detê-los à força. Praticamente isso seria reservar as melhores terras de S. Paulo, Goiás e principalmente Paraná para os imigrantes estrangeiros. Aquelas terras têm sede de braços; nada mais natural que atraiam homens que não encontram, em suas próprias regiões, meios de subsistência.
O sr. Lopes de Andrade, na base de uma pesquisa sobre as relações de trabalho na cidade de Campina Grande, declara que “o trabalhador nordestino que regressa de uma migração torna-se em geral uma espécie de fermento nas cidades e nos campos, exigindo maiores salários, ambiente requintado onde trabalha e, sobretudo, converte-se num “conversador”, produzindo menos que antes de migrar e ainda por cima procurando convencer os que nunca migraram de que são uns tolos e explorados por seus patrões, etc”.
Acredito na justeza dessa observação, fruto de uma pesquisa honesta: mas a ação desse “fermento” não é apenas negativa; é também, e especialmente, progressista. Ela redunda em uma pressão sobre as classes possuidoras e dirigentes no sentido de criar melhores condições de trabalho e de vida para o nordestino em sua própria terra; e isso não há mesmo como diminuir o volume das migrações. Esse “conversador” tem, ao longo das coisas, um efeito salutar: é um agente de progresso e de melhoria social. Já vi em uma colônia portuguesa, as ilhas de Cabo Verde, a miséria e o surdo desespero de trabalhadores proibidos de emigrar, obrigados, pelo pecado de ter nascido ali, a serem explorados, através dos tempos, pelos mesmos patrões, que não têm o menor interesse em melhorar suas condições de vida pois sabem que, como escravos virtuais que são, eles não podem escolher outro destino.
Por que tanto alarme com os trabalhadores que emigram tangidos pela fome? Por que não proibir também aos usineiros e industriais do Nordeste gastar o capital que deviam empregar lá em especulações imobiliárias no Sul ou em farras e tolices no Rio ou na Europa?
Que diabo será aquele “ambiente requintado onde trabalha” que o emigrante de torna viagem irá exigir no Nordeste? No Sul não há nenhum ambiente requintado para o trabalhador rural; aquele “requinte” que ele exige deve se limitar a algumas das condições mínimas uma vida mediocremente tolerável. Se os patrões do Nordeste não podem satisfazer essas exigências, é não apenas fatal como também muito bom que os trabalhadores migrem, forçando lá, pela escassez da mão de obra, a alta dos salários reais.
Eis algumas considerações vadias que nos inspira a conferência “Forma e Efeito das Migrações do Nordeste” que é o ponto de partida de um livro forçosamente muito curioso e instrutivo que nos promete o sr. Lopes de Andrade – que forma, com certeza, ao lado do jovem Juarez Batista, a dupla mais promissora dos valores novos paraibanos que cercam o sr. José Américo.