A manhã acordou molhada e a grande árvore perto de minha janela se agitava, gotejante, ao vento fresco. Esse vento tinha um cheiro de mato e de mar, e limpava a consciência da cidade demasiada urbana com seu cheiro de óleo, preocupações e fumaça de gasolina. Era como se em Copacabana ainda houvesse brejos com seus coleiros, e cajueiros com seus sanhaços azuis.

Mas a empregada traz o jornal, olho os títulos, as legendas, as caras antipáticas dos homens importantes nos "clichês", e regresso ao mundo feroz e restrito da melancólica urbs.

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Leio os jornais, “Apanhado um agiota com a boca na botija”, diz um matutino. Precipito-me a ler a notícia. Não há entre nós, os pobres diabos enforcados, ou que já um dia foram escalpelados nos juros “por fora” e de mora, quem não tenha um medíocre prazer em ler uma notícia assim.

Que banco seria? Decepção. O terrível agiota é um mecânico da Prefeitura, de cor parda, que tirava dinheiro do Montepio para alugá-lo a juros mais altos. Todo o seu movimento não foi além de 300 contos, em toda sua carreira. Vai ser processado, despedido, preso.

Outra notícia: houve uma reunião de 45 banqueiros com o ministro da fazenda. Quantos, dentre eles, podem dizer que jamais cobraram mais de 12 por cento ao ano?

Sim, a polícia vigia. E a Justiça faz justiça. Leio um telegrama de Minas. Um ladrão foi condenado a dois anos e meio. Furtara a importância de cinco cruzeiros. Faço a conta. O feio crime saiu-lhe a pouco menos de um dia de cadeia por vigésimo de centavo de cruzeiros, ou seja, por cinco réis roubados; ou, em resumo: para cada tostão roubado, 20 dias de cadeia.

Vamos aplicar essa taxa do juiz mineiro?

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É provavelmente a isso que se chama “fisgar tubarões” — penso, com aborrecimento, pondo o jornal de lado.

Volto à janela. O meu vizinho é comissário de avião, e trouxe uma ave do Norte. Não sei o seu nome. Sei o nome de tanta gente chata e não sei os das aves do meu país natal! Mas essa ave é grande, e colorida, e canta. Seu canto é belo e estranho e feliz na manhã molhada, de árvores gotejantes, de vento limpo. E de repente sinto que meu peito também está limpo e que às vezes, no meio de tanto comércio e aflição, um pobre habitante desta cidade ainda pode se sentir no esquivo e bom estado de pureza.

rubem-braga
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