Quando o secretário do jornal fechou a última página, vestiu o paletó e saiu para a rua, seria difícil saber em que ele estava pensando; difícil, inclusive para ele mesmo. Porque não pensava, se pensar implica em algo de ativo, de dirigido. Apenas deixava que viesse à tona, no seu cérebro, uma série desordenada de imagens: trechos de notícias, títulos de reportagens, legendas de gravuras.

Todo um mundo de palavras, figuras, ideias e fatos que o leitor ia receber pela manhã como algo de novo e palpitante, os últimos recados e sentimentos do mundo; mas que para aquele homem cansado, na madrugada fria, era apenas uma série de pequenos problemas a que tivera de dar atenção, sem prazer e sem pena: “Este clichê vai ser em duas ou três colunas? Esta matéria não tem substituto? Tipo 8 ou 10? Em que página continua isto? O que é que vai sair aqui, está sobrando quase meia coluna, tira essa nota sobre o Cais do Porto ou esse negócio de filosofia? Acho que esse anúncio está marcado alto de página, veja ali”.

Essas perguntas já respondidas, feitas pelos outros ou por ele mesmo, ainda ecoavam confusamente; e ele revia um original em que riscara algumas linhas, cortara adjetivos, dividira frases ⏤ como escreve mal esse Ananias, que burro velho, faz reportagem há 20 anos e não redige uma frase direita; pensou com raiva no Ananias ⏤ com raiva não, com tédio, o Ananias era um bom sujeito e afinal de contas não era mau repórter.

E o Barbosa, com aquela sua mania de pontos de exclamação! Fizera uma pequena maldade com ele aquela noite: sabia que ele estava com pressa de sair da redação e o mandara atender a uma comissão de diretores de uma sociedade de cegos ⏤ que naturalmente vinha acusar outros diretores de outra ou da mesma sociedade de cegos, nessa eterna disputa em que vivem muitas sociedades de cegos, sempre com acusações e queixas que ninguém jamais lê, porque só interessam aos cegos.

Pensou um instante no que sentiria se ficasse cego; fez como no tempo de criança; fechou os olhos e continuou andando assim ⏤ mas logo os abriu outra vez. No meio do seu cansaço e de seu tédio, teve de repente uma grande pena dos cegos, e também de todos os que têm algum defeito físico, os que não podem ouvir, os que não podem andar, os homens sem braços, as mulheres tão feias que não gostam de ser vistas; e depois se lembrou de doenças, pensou em Eva Perón, coitada, e também nos pobres que vira em tantas partes do mundo, a gente que espera nos hospitais, aquele menino que viu no Hospital Jesus e que ficara cego por falta de vitamina A, cego por miséria, por fome, um pobre negrinho. Desejou, do fundo de seu coração, que o menino tivesse morrido.

Ia para casa; mas sentiu de repente que estava muito triste e muito vazio: sentia-se cansado, mas se fosse dormir logo sonharia com títulos, notícias, clichês ⏤ talvez doenças, já que estava pensando em doença. Afinal de contas tinha 500 cruzeiros no bolso. Caminhou até a praça, pegou um táxi, mandou tocar para um bar.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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