Lugar difícil de uma pessoa conhecer é o Brasil. A gente toma avião para um lado e outro e no fim fica sabendo que não conhece quase nada.

De vez em quando se fala em turismo: mas fazer não se faz nada. Outro dia, Licurgo Costa, que está dirigindo o Escritório Comercial do Brasil em Nova York, me dizia que chegou à conclusão de que não é difícil animar correntes de turismo norte-americano para o Brasil. O americano, disse ele, não sabe o que quer, e sobretudo não quer pensar. Quando resolve fazer uma viagem, vai a uma agência e pede conselho ao homem. “Eu mesmo fiz isto nos Estados Unidos, quando precisei de um lugar de montanha sossegado para mandar minha família por uns 15 dias; e deu certo”. Assim, o dinheiro que houver para publicidade deve ser distribuído pelas agências; elas encaminharão os turistas para o Brasil. Ele acha que isso poderia ser feito de acordo com a Argentina e o Uruguai, pois o turista americano que vem à América do Sul quer ver os três países. O golpe era fazer um “pool” de turismo.

O dinheiro que se gastar nisso – diz Licurgo – volta depressa. Não há empate de capital com remuneração mais alta nem mais rápida.

Mas seria preciso também ajudar o turista aqui; em primeiro lugar defendê-lo contra a “tungagem” de motoristas, etc. Penso que além disso é preciso criar no Rio algumas coisas que façam desta cidade uma verdadeira capital. Tanto para o turista estrangeiro como para o indígena é preciso criar atrações. Já sugeri uma vez ao Saps – que agora mesmo vai promover a Semana da Alimentação – a fundação de um grande restaurante de pratos regionais brasileiros. Comida mineira, paulista, baiana, pernambucana, amazônica, especialidades de Paranaguá, de Goiás, de Alagoas, de toda parte. Mas isso feito com cozinheiros vindos desses lugares quando necessário, com gêneros e temperos também. Caro que fosse, esse restaurante daria certo, e funcionaria também de certo modo como restaurante escola, facilitando aos outros as receitas de pratos regionais.

Uma coisa que Portugal tem e nós não temos é um museu de arte popular. Quanta coisa bonita, objetos de uso e de adorno, a gente não encontra por esse Brasil e no Rio quase ninguém conhece? Outro dia, eu trouxe de Aracaju uma moringa de gomos, imitando abóbora, de uso corrente no interior do Sergipe: nenhum amigo meu conhecia. Só em matéria de redes o museu poderia apresentar uma variedade belíssima. E uma parte dos objetos poderia se destinar à venda, para estimular o artesanato regional. Por que não fornecer, por exemplo, aos homens de Caruaru, que fazem bonecos de barro, meios de tornar esse barro mais resistente? Isso não deturparia em nada a graça e o gosto de sua arte, e daria valor muito maior a esses bonecos.

Endireitar o Brasil e curar seus males, isso é complicado, e acho que nem eu nem o dr. Vargas faremos nunca. Mas pelo menos a gente podia aproveitar melhor o que o Brasil tem de bom. E fazer isso ganhando dólares me parece uma boa ideia. 

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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