Zico Velho

Aqui vamos pelejando neste largo verão. Escrevemos com janelas e portas abertas, e a fumaça de meu cigarro sobe vertical. A única aragem é a das saudades; e por sinal que me aconteceu ontem lembrar um outro verão carioca de que nem eu nem você teremos saudade.

Cada um de nós tinha apenas um costume de casimira, e batíamos em vão as ruas do centro, a suar, procurando algum jeito de arranjar algum dinheiro; era horrível. Ainda hoje quando passo pela esquina de Ouvidor e Gonçalves Dias me detenho um pouco, para gozar a pequena brisa que sempre sopra naquela esquina. Ali ficávamos os dois, abrindo o paletó, passando o lenço na testa: a brisa da esquina era amiga na cidade hostil. Na avenida olhávamos com inveja as pessoas que tomavam aquele espumoso refresco de coco da Simpatia; entrávamos em Ouvidor, parávamos um pouco na esquina e depois íamos à Colombo beber um copo d’água gelada. A brisa e o copo d’água da Colombo eram o nosso momento de oásis; e o copo d’água traiu você!

Foi naquela porta (eu não estava nesse dia) que um sujeito da polícia política lhe bateu no ombro – e eu perdi por muito tempo o amigo e a sua clara gargalhada que me confortavam naquele período de miséria e aflição. Escondi-me num subúrbio, depois fugi da cidade passando a barreira de tiras com uma carteira do Flamengo adulterada.

Essas coisas me fazem lembrar outras, também ásperas e tristes; estou num dia de lembranças ruins. Quando hoje vejo moços a falar do tédio da vida, tenho inveja: nós nunca tivemos tempo para sentir tédio. Como éramos pobres, como éramos duros! Um conterrâneo que a gente encontrava na rua e nos pagava meia dúzia de chopes na Brahma nos parecia um enviado de Deus; os chopes nos faziam alegres, e o gesto amigo nos enchia o coração; lembro-me de ter ido para casa a pé, sem duzentos réis para o bonde, porque interara uma gorjeta de um desses enviados de Deus e rejeitara, como um príncipe, o dinheiro que ele me queria emprestar.

Sim, nós éramos estranhos príncipes; e as aflições e humilhações da miséria nunca estragaram os momentos bons que a gente podia surrupiar da vida – uma boca fresca de mulher, a graça de um samba, a alegria de um banho de mar, o gosto de tomar uma cachaça pela madrugada com um bom amigo, a falar de amores e de sonhos.

Assim aprendemos a amar esta cidade; se o pobre tem aqui uma vida muito dura, e cada dia mais dura, ele sempre encontra um momento de carinho e de prazer na alma desta cidade, que é nobre e grande sobretudo pelo que ela tem de leviana, de gratuita, inconsequente, boêmia e sentimental.

Aníbal Machado, quando não tinha mais onde se esconder dos credores, passava o dia alegremente no banho de mar; e eu me lembro de uma noite em que não havia jantado e não sabia onde dormir, entrei ao acaso num botequim em Botafogo e um bêbado desconhecido me deu um convite para um baile onde havia chope e sanduíches de graça.

Assim era esta cidade, e assim a conserve Deus, para salvar do desespero o pobre, o perseguido, o humilhado, e abençoá-lo com um instante de evasão e de sonho.

Quem lhe escreve, Zico, é um senhor quase gordo, de cabelos grisalhos, se algum rapaz melancólico ler esta correspondência entre velhos amigos, talvez ele compreenda que ainda se pode, à tardinha, ouvir as cigarras cantar nas árvores da rua; e, na boca da noite, aprender, em qualquer porta de boteco, os sambas e marchas do Carnaval que aí vem; que às vezes ainda vale a pena ver o sol nascer no mar; e que a vida poderia ser pior se esta cidade fosse menos bela, insensata e frívola.

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